Há pouca dúvida de que Carl Gustav Jung se classifica em primeiro lugar entre os alunos de Freud, como o próprio mestre admite numa carta a seu discípulo onde fala em “ungi-lo como meu sucessor e príncipe coroado.” Esta investidura, como sabemos, não aconteceu, ao menos não do jeito que Freud pretendia; e também está claro que ao tempo de sua desavença, Jung passara a ver seu mentor como alguém parcial, estreito e tendencioso em suas idéias. Ele sentia, por exemplo, que Freud havia dado destaque exagerado ao papel da sexualidade - e da repressão desta - na vida psíquica, e que tinha também exagerado a importância de coisas tais como as fantasias e traumas experimentados na infância. Não que as premissas da psicologia freudiana fossem de todo infundadas: o que mais incomodava a Jung eram o dogmatismo e o exclusivismo extremados com que esses conceitos eram defendidos. Ele vê Freud principalmente como um iconoclasta, “um grande destruidor, que rompe os grilhões do passado” um audacioso denunciador[1] do ambiente social burguês do século XIX no meio do qual nasceu, “com suas ilusões, sua hipocrisia, suas meias-verdades, suas emoções esmeradamente fingidas, sua moralidade doentia, sua religiosidade falsa e débil, e seu gosto lamentável...” [2]. Mas ele não o percebe como o profeta de uma nova era – uma posição, como logo veremos, que Jung reservara para si mesmo.
















