Em parte, retomo o assunto do artigo anterior motivado pelo notável comentário de uma inconformada e irascível opinante. Sou-lhe grato pela expressão utilizada, que me dá a chance de tentar analisar um pouco mais as origens da ecovigarice. Explico: possuidora de uma misteriosa “consciência ecológica”, a opinante estaria assim investida de autoridade suficiente para chamar de “mentiras” aquilo que não leu. Por força do mau hábito e para o seu conforto psicológico, apenas reagiu. E uma vez que ela mesma demonstrou ser capaz de se expor ao ridículo com desenvoltura comovente e característica daqueles que, sobre toda e qualquer coisa já têm uma opinião, ainda que emprestada sem muita consciência, passo à análise e esqueço a personagem.
Exceto pela consciência moral, consciência dispensa adjetivação. As ditas consciências ecológica, social, política, histórica, crítica, etc., são meras construções verbais de ocasião, e como tantas outras, são úteis apenas dentro dos discursos de seus autores e seguidores, dentro dos sistemas fechados de pensamento, das teologias civis que têm como traços mais ou menos comuns a obrigação de primeiro acreditar, a proibição de questionar e a sobreposição de sentidos outros às palavras, sentidos esses que só fazem sentido dentro dos respectivos sistemas. Não por acaso, essa formulação em circuito fechado é a marca de filósofos e pensadores gnósticos, revolucionários, niilistas, ou, simplesmente, propagandistas de esquerda: Kant, Rousseau, Hegel, Marx, Gobineau, Dilthey, Gadamer, Habermas, Marilenas, Franciscos, Mincs, Bettos e Betinhos.
Essa vigarice, gigantesca e pretensiosa, evidentemente já é ruim por si só, pois tais sistemas não buscam a apreensão e o conhecimento de aspectos da realidade, quer através das ciências particulares ou da filosofia, mas ao contrário, buscam encaixar, com a delicadeza de um Mike Tyson, aspectos específicos da realidade nesses sistemas, com a intenção demiúrgica de, na marra sistemática, transformá-la por inteiro. É a revolta gnóstica: não podendo de fato recriar ou alterar a estrutura da realidade, os revoltosos criam sistemas onde a transformação não somente parece possível, como é a única justificativa de sua formulação. Danem-se as consequências e calem-se os discordantes, como atualmente atestam os conflitos entre os discípulos e os hereges do ambientalismo enragé.
Mas a porca realmente torce o rabo quando esses demônios ganham asas, escapam da Caixa de Pandora e atingem o homem-massa, tal como o definia Ortega y Gasset. O homem-massa não é o novo homem, o proletário iluminado que iria conduzir a revolução, segundo Marx, o mitômano; é o homem comum da classe média, que busca na universidade não necessariamente o saber, mas a certificação profissional que lhe garanta o sustento. E isto seria aceitável, louvável até, desde que esse tipo de profissional não fingisse uma autoridade que não tem. Descolado que foi da filosofia grega e da tradição judaico-cristã pela perversa modernidade, o homem-massa é capaz de ostentar impressionantes títulos universitários, mas não é capaz de perceber que na maior parte do tempo é mero boneco de ventríloquo. Há excesso de gente apenas oficialmente capaz, que se traduz numa massa de seres em busca de cargos e verbas limitadas. Fica claro que o problema não é só a quantidade de cientistas nominais, mas sua qualidade efetiva. Se para permanecer à tona na onda do momento é necessário abdicar de princípios ou até da lógica, se para não correr riscos é necessário execrar, trair e “excomungar” aqueles que se mantêm fiéis à honestidade intelectual e ao permanente estado de dúvida, não há problema: sempre haverá consolo na igrejinha da religião política em voga. Lá não há verdades nem inverdades inconvenientes, mas apenas o som dos cânticos que “todo mundo sabe”. Nesse caldeirão infernal, se agitam a loucura, a mediocridade e a incultura. A sopa rala e venenosa é servida ao grande público pela mídia, alimentando a palpitaria esquizofrênica global. É como diz um amigo toda vez que ouve ou lê uma estupidez consensual: Para o fundo! E avante!
Mas nem tudo está perdido. Se o doloroso peso da realidade econômica acabará por se impor, sepultando legislações absurdas e discursos idem, também no campo científico começam a ser ouvidas as vozes daqueles que conseguem ver através dessa densa cortina de fumaça político-midiática. Além de Ian Plimer, Alan Carlin, John S. Theon, outro nome de peso juntou-se às fileiras dos anticatastrofistas e contra o falso consenso do aquecimento global antropogênico (ou do resfriamento antropogênico), como veremos mais adiante.
Em tempo: Que nenhum apressado disso infira a negação da existência de poluição localizada ou de atos propositais que causem danos a determinado número de pessoas. Por exemplo: despejar um barril de tolueno num riacho. Isso caracterizaria dano direto a quem porventura dessa água dependa, e jamais um “crime ambiental”, por mais que a legislação assim o classifique. Um crime precisa de um agente e de uma vítima; assim, o infrator ficaria obrigado a indenizar aqueles objetivamente prejudicados e não ser punido por um ato contra o “meio-ambiente”. No Paraná, policiais militares do Batalhão Ambiental da Força Verde (sic), com a obsequiosa fanfarra dos jornais, celebram orgulhosos o atendimento de 1.479 ocorrências relacionadas a “crimes ambientais” no 1º semestre de 2009. Não culpo os policiais, que afinal apenas cumprem uma legislação que não foi criada por eles, e se um oficial dessa corporação repete os mantras ambientalistas, não serei eu a condená-lo. Todavia, imagino que os paranaenses ficariam mais contentes em seu ambiente se igual número de ocorrências estivesse relacionado à detenção, julgamento, condenação e encarceramento de ladrões, assaltantes, latrocidas, traficantes, estupradores e pedófilos. Afinal, de que adianta um “planeta saudável” se você corre o risco de, prematuramente, vir a desfrutá-lo sob sete palmos de terra e pelo simples fato de que saiu à rua na hora errada? Para ambientalistas extremados, a vida humana é um embaraço. Duvidam? Reproduzo então, com pequena adição, trecho de um artigo do engenheiro e pesquisador Alan Neil Ditchfield, “Bicho-papão ecológico”, escrito em 2003 e fruto de um longo trabalho de observação e pesquisa:
As grandes organizações de meio ambiente têm em Gore [e agora também em Obama] um instrumento para atender ao seu interesse imediato por mais receita, mas todos estão a serviço de uma agenda maior, de cunho socialista, bem caracterizada pelo professor de ciências políticas, Aron Wildavsky, da University of California – Berkeley, sobre aquecimento global:
“O aquecimento (e só o aquecimento), por seu antídoto primário de negar carbono à produção e consumo, é capaz de realizar o sonho do ecologista por uma sociedade igualitária baseada na rejeição do crescimento econômico, a favor de uma população menor, comendo pouco na cadeia alimentícia, consumindo muito menos, e compartilhando um baixo nível de vida em maior igualdade.”
Em seu artigo, Alan Ditchfield reproduziu também outra pequena jóia que sintetiza o movimento ambientalista:
“Chris Patten, ex-ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, assim descreveu o radicalismo ecológico: “Em sua forma pior, a Política Verde é um tipo de fascismo Zen; menos extrema, denuncia o crescimento e busca parar o mundo para que todos possamos descer”.
Ironicamente, a mesma mídia arrogante e novidadeira que reverbera as potentes ondas da insensatez, neste caso a respeito das ameaças ao planeta azul, forneceu-me excelente material. Através de um link enviado por um leitor à redação deste site, cheguei a um artigo publicado pela revista Time em junho de 1974, intitulado Another Ice Age? [Uma outra era glacial?]. A revista não sabia dizer exatamente o que causava uma queda nas temperaturas, apenas as sugeria, mas afirmava que os sinais de uma nova era glacial estavam em toda parte. Dentre as possíveis causas desse resfriamento – que ocorreu, mas sem, provocar as catástrofes tão ao gosto da mídia – estava a idéia de que a poluição produzida pelo homem (não se esqueçam que erupções vulcânicas também são “poluidoras”) era uma das causas. Quem defendia essa tese era o Professor Emérito da Universidade de Wisconsin, Dr. Reid A. Bryson, geólogo, doutor em climatologia e em engenharia. Segundo ele, a poluição atmosférica gerada pela atividade humana bloqueava os raios solares, impedindo que esses aquecessem a superfície terrestre. Quando ele pela primeira vez apresentou a idéia de interferência humana nas mudanças climáticas, em 1968, ouviu gargalhadas como resposta. Quase quarenta anos depois, quem ria era ele, mas dele mesmo: tornara-se um crítico contundente da idéia de mudança climática antropogênica. Em 2007, um ano antes de sua morte, aos 84 anos, o Dr. Bryson assim descrevia as suas conclusões:
“Já nos primeiros trinta pés da atmosfera [aprox. 10 m], em média, a radiação solar refletida a partir da Terra, que é o que supostamente é afetado pelo CO2 , quanto dessa energia refletida é absorvida pelo vapor d’água? Nos primeiros 10 (dez) metros, 80%. E quanto é absorvido pelo CO2 ? Oito centésimos de um por cento. Você pode ir lá fora, dar uma cuspida, e isso teria o mesmo efeito que dobrar a quantidade de dióxido de carbono”.
Isso está em perfeita concordância com as conclusões do Prof. Ian Plimer e de muitos outros cientistas, e não faz do Dr. Bryson um leviano vira-casaca: ele foi um cientista na verdadeira acepção da palavra. Não teve medo de estudar e de publicamente reconhecer que esteve errado. É da natureza da ciência a sua impermanência, sendo mais ou menos constante apenas a dúvida.
E se os ecovigilantes vituperam, rotulando seus opositores de “estupradores de vacas”, “comedores de bebezinhos” ou de “adeptos da idéia retrógrada de uma Terra plana”, é bom lembrar que, para quase todos os efeitos práticos do cotidiano de uma pessoa comum, a vida se desenrola no plano. Ninguém (a não ser alguém bastante bêbado) jamais se levantou e caminhou até o banheiro preocupado com a rotação do planeta quase esférico. Do mesmo modo, se Yuri Gagarin pôde dizer que a Terra é azul, é por que a viu de fora. Tudo se resume à observação privilegiada e desapaixonada a partir de determinado ponto de vista. Pois “Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. [...] Há tempo de estar calado, e tempo de falar...”.









Um dos melhores textos que já li a respeito do tema ambientalismo.
Magistral colocação, segundo a filosofia Objetivista de Ayn Rand. Ver o quadro completo e correlacionar não-contraditoriamente todos nossos conhecimentos. Assim evitamos argumentos fora de contexto, que sendo Relativistas, são a fonte de todas essaas falacias. O próprio Papa Bento XVI no seu primero pronunciamento condenou o Relativismo como essencial ao erro. Parabens, que Deus lhe abençõe e o Espírito Santo continue a lhe iluminar...
O Mídia@Mais é, no todo, muito consistente e equilibrado. Seus articulistas estão todos de parabéns. No entanto, peço licença para destacar este texto, um dos mais brilhantes e eloquentes que já li, e não apenas neste site.
Um abraço a todos.
É impressionante como o ser humano consegue as vezes ser tão ingênuo. Como é que tantas pessoas podem se convencer de que é possivel prever o clima com centenas de anos de antecedencia, se ainda não se consegue sequer prever se vai chover em um determinada cidade nas próximas 24 hs?
Li e reli, algumas vezes, os dois artigos deste colunista. Consultei cada link, comprei o livro do Prof. Plimer (ainda não chegou...), e repassei os artigos a uns poucos amigos. A resposta de um deles, ligado a uma entidade ambientalista, foi emblemática: "Você quer que eu perca o meu ganha pão?". Dos outros, silêncio. Para não expor meus amigos, uso um apelido, mas continuarei a divulgar essas informações preciosas.
Continue o bom trabalho, Sr. Henrique.
Este colunista era um completo desconhecido para mim. Vi no seu perfil que tem formação em engenharia. Sendo eu um advogado, fico muito feliz que este site busque a argumentção sólida longe dos currais do jornalismo de carteirinha. Vejo mais profissionalismo, cultura e sagacidade aqui do que na maioria dos grandes veículos de comunicação de massa. Isso aqui não é para o homem-massa, definitivamente.
Saudações a todos.
Prezado sr. Ernesto
Obrigado pelo seu gentil contato, estamos trabalhando para ser merecedores de opiniões como as do amigo, e também das críticas e sugestões que chegam ao nosso conhecimento.
Esperamos que o sr. continue prestigiando nosso trabalho com suas visitas e comentários.
Um abraço
Editoria MÍDIA@MAIS
Parece-me não apenas salutar, mas absolutamente necessária a abordagem que o colunista, o sr. Henrique Dmyerko, adotou em seus dois artigos sobre o ambientalismo, isto é, apresentar as raízes mais profundas desse movimento que mistura má-fé, má ciência e grandes doses de fanatismo. Espero que o assunto continue em pauta.
Do que leio aqui e do que tentam me fazer acreditar através da televisão, penso que há uma combinação em altas esferas para confundir e controlar o público mundial. É o "aquecimento global", a insistente campanha pela liberação das drogas, a idéia do aborto livre, a gripe "matadeira", etc. Estamos... e mal pagos. O trabalho deste colunista e do midia@mais é uma bela tentativa de abrir os olhos de quem quiser ver, mas, infelizmente vocês não controlam a Rede Globo ou outro grande ventilador da mídia.
Aos incautos pode parecer que o colunista quer impedir a expressão de opinião, mas na verdade, o que o Sr. Henrique Dmyterko sugere é que as opiniões devam ser dadas com um mínimo de base em estudo e reflexão. É o óbvio, mas infelizmente, pouco comum. Reina a palpitaria inconsequente, como no caso da tal gripe. Mais um artigo de muito boa qualidade.
No artigo anterior, fiquei com uma dúvida, que o colunista esclareceu. Sobre este, nehuma dúvida. De duas uma: ou o colunista consegiu ser ainda mais claro ou eu estou começando a entender melhor isso tudo. Passei a ler também os outros colunistas do site e não há pensamento único, mas um monte de gente capaz procurando passar informação e esclarecimento. Muito bom o trabalho de vocês.
Abraços.
Mais dados e mais informação consistente sobre um tema muito mal abordado pela grande imprensa.
Meus cumprimentos.
Este texto só confirma o que venho observando neste site: seriedade, afastada da opinião sem base, com doses de bom humor.
Muito bom.
Mais um artigo para quem não quer ser levado na conversa mole e persistente dos espertalhões catastrofistas.
Parabéns ao colunista.
Realmente, não devo opinar sobre tudo, mas sobre este artigo, posso: excelente.