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Ronaldo e Lula. Lula e Ronaldo

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Recentemente, Lula e Ronaldo bateram bola em nome de uma campanha do Governo Federal. A imprensa adorou, porque lá estavam, juntos, talvez os maiores fenômenos midiáticos de nossa história recente. Poupou-se gasolina aos veículos da produção.

Lula e Ronaldo têm mais coisas em comum que o time do Corinthians (o primeiro se declara corinthiano, o segundo veste a camisa do clube). O sucesso implacável de ambos é resultado de um processo extensivo de publicidade e tola mistificação, esta última baseada em clichês de predestinação (os dois seriam “escolhidos pelo destino”).  Um é espelho do outro, e tanto Lula quanto Ronaldo espelham o gosto do brasileiro pelo heroísmo imperfeito e pela romantização do vexame.
 
Ronaldo não produziu praticamente nada para os clubes brasileiros, uma vez que partiu ainda menor de idade para fora do país. Jogou 4 Copas do Mundo, sendo que na primeira apenas compôs o grupo. Nas 3 em que entrou em campo, pode ser diretamente responsabilizado pelo fracasso em ao menos duas delas: em 1998, teve um troço no dia do jogo final, em evento que permanece duvidoso até hoje; em 2006, fora de forma e desestimulado, parece ter sido mais efetivo nos eventos extracampo do que nos jogos de fato. A Copa que venceu, certamente não o fez sozinho: foi a de 2002, a Copa que foi dele, mas tanto ou mais de Rivaldo (que é “feinho” e pouco simpático para o gosto da mídia) e de Felipão (mal-humorado e imprevisível demais para virar queridinho da imprensa).
 
Lula, por sua vez, obteve êxito onde suas ações diferiram de suas promessas: na economia, onde vence apoiado nos ombros das marés internacionais, do dinheiro dos impostos crescentes, dos acertos macroeconômicos do governo anterior, etc. Falha miseravelmente em todo o resto: sua administração salta de um escândalo para outro em questão de dias; o Estado está sitiado por interesses particulares e sindicais; a segurança pública, a infra-estrutura e a saúde nunca estiveram tão fragilizadas; a política externa é uma piada.
 
Nada disso, contudo, parece importar quando os dois fenômenos são enxergados de fora, através das lentes da mídia. Tanto Lula quanto Ronaldo são agentes ativos apenas de seus sucessos, mas nunca de seus erros. Ambos, heróis de força sobre-humana, passam a  vítimas indefesas quando põem tudo a perder. Se o primeiro está no centro do Mensalão, a culpa é dos outros, dos “aloprados”. Se o segundo é pego num vexaminoso quiprocó com travestis, a culpa toda é, logicamente, dos “outros”, dos indigentes transsexuais.
 
Os dois ídolos do povo são heróis solitários, se considerarmos “solidão “ o suporte de gigantes financeiros como a Nike ou os bancos e organismos internacionais. São perseguidos por seu sucesso, embora ninguém consiga especificar quem, de fato, os persegue.
 
Um dado que ainda não foi devidamente estudado, e que talvez explicasse o sucesso estrondoso de ambos, é a infantilização das duas figuras públicas: a de Lula se assemelha à de um ursinho de pelúcia, atarracado, peludo e inofensivo. Ronaldo, por sua vez, guarda aquela fisionomia de criança, o rosto redondo, a compleição bojuda de um menino crescido.
 
A publicidade teria em crianças com poder de compra seus alvos ideais: cheias de dinheiro e vontade de ter, e ao mesmo tempo a incapacidade de problematizar o ato da compra. Lula e Ronaldo são ídolos, especialmente, em uma sociedade infantilizada. São ídolos dessa entidade aparentemente suprapartidária, o tal “povo brasileiro”. Protegidos por hordas de puxa-sacos, falar mal de ambos é temeroso, é tarefa não de heróis, mas de adultos, não é coisa para bajuladores de CQCs da vida. Questionar seus reinados é quase um crime social. Mas alguém não disse certa vez que a prisão pode ser o último refúgio para os homens de bem?

 

 




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Comentários (5)
5 Qui, 28 de maio de 2009 11:42
Felipe

O jogador do São Paulo Richarlyson dá um show em vídeo no youtube: ele detonou o Lula e o CQC quase cortou a resposta, pra não dar tempo da gente ouvir. Mas deu pra ouvir sim, confiram: http://www.youtube.com/watch?v=kKbLImVQ3PA É legal comparar as respostas dele com as do ex-jogador Neto, que é um falso polemista: nunca fala nome, é sempre a crítica contra "os políticos, "o senado"... O jogador são paulino é acusado de ser "veado", e depois dessa a petistaiada vai cair matando nele. O Reinaldo Azevedo, ao invés de ficar puxando o saco do Ronaldo, podia sair em defesa dele.

4 Seg, 25 de maio de 2009 11:27
Magnus

Belo texto, mas pouco se pode esperar dele, quando se poupa FHC, outro "herói" cujos fracassos e erros são esquecidos pela maioria. Infelizmente

3 Seg, 25 de maio de 2009 10:59
Andriara Penha

Gostaria de elogiar o comentário inscrito no dia 23 de maio do corrente ano, do Sr. Agapito Costa, concordo que estes são os nossos gladiadores modernos pena que pouquissímas pessoas se dão conta disso.

2 Sáb, 23 de maio de 2009 13:34
Agapito Costa

Lula & Ronaldo, ambos são gladiadores do século XXI. Retornemos ao coliseu romano no ano 264 A.C., Bruto e Décimo. Vejamos as semelhanças. Ambos exercem atividades idênticas. Futebol e política. Ambas podem ser exercidas por qualquer apedeuta. O que difere de seus antepassados é que estes morriam em combate para saciar a sede de sangue da plebe. Lula e Ronaldo, gritam para a plebe "occide, occide!" com os bolsos cheios de dinheiro e a plebe responde sem entender "Habet", agitando os panos brancos.

1 Sex, 22 de maio de 2009 12:15
Saulo Salviano

Gostaria de lembrar como a economia que "vence apoiado nos ombros das marés internacionais" não tem buscado mais empréstimos ao FMI como mesmo com a crise internacional. Assim também, a política social promoveu uma transferência de + pessoas das classes D e E para a C, histórica . Devemos criticar os erros, e não os acertos. A mídia falava mais, e melhor, de Geraldo Alckmin em 2006 estampando-o em capas de revistas e se calava às conquistas do governo. Por fim, eu gostei do resto e acho q devemos observar como a mídia neste país tem poder. Tenhamos cuidado!


Prezado Salviano:


E devemos lembrar que:


- O fato do FMI não emprestar dinheiro a um país não quer dizer absolutamente nada, aliás, é hilário ver os mesmos que antes atacavam o FMI agora usando-o como referência para alguma coisa supostamente positiva;


- A "tal transferência social" é feita a custa de uma imensa carga tributária, presença do estado crescente na economia, inúmeros tipos de bolsas etc, criando, na  verdade, assistencialismo sem fim e uma legião de dependentes e currais eleitorais, para não falar da corrupção em níveis nunca antes vistos "neste país";


- O que é que a suposta divulgação favorável promovida por alguns  órgãos de mídia da campanha eleitoral de um candidato oposicionista, - aliás, como foi positiva a associação que a imprensa fez, na época, dos ataques do PCC em São Paulo ao governo do então governador... -na qual ele foi derrotado, tem a ver com o fato de que a mídia apoiou o sr. Lula de forma nunca antes registrada em relação a um político brasileiro, como aliás até petistas já reconheceram?


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