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Hollywood hi-pro-islã

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Uma das mentiras mais recorrentes contadas pela crítica de cinema é a de que os filmes de Hollywood fariam parte de um imenso plano global de dominação imposta pelos Estados Unidos, incluindo-se aí o militarismo e a exportação de produtos e modo de vida.

A crítica brasileira, por sua vez, é pródiga em repetir essa bobagem. Um pouco por falta de compreensão dos filmes, e outro tanto por má fé mesmo. Alguns dos papagaios que compõem a crítica são afeitos a generalizações irreais, como aquela que diz que os vilões preferidos de Hollywood são, hoje, os islâmicos.

Para entender como essa idéia é equivocada e mentirosa, é preciso primeiro se compreender o que significa o conceito “Hollywood”. Historicamente, o bairro de Los Angeles confundiu-se com a sede dos grandes estúdios produtores e distribuidores de filmes. Com o passar do tempo, contudo, essa propriedade tornou-se difusa: alguns estúdios foram sucessivamente adquiridos por conglomerados de outras nacionalidades (notadamente, por alemães e japoneses). Hollywood tornou-se, então, mais uma idéia de cinema do que um modo de produção mais específico. Hoje, representa a produção mais alta do cinema feito nos EUA: ou seja, falando ainda mais resumidamente, as 6 ou 7 dezenas de produções realizadas por produtores norte-americanos que lançam mão dos principais diretores, atores, roteiristas e técnicos disponíveis na indústria cuja língua é o inglês.

Tudo isso significa que, antes de poder representar qualquer projeto nacional, Hollywood representa o interesse e o imaginário de um setor da economia mundial: o do entretenimento. É bobagem se falar de “interesses norte-americanos” quando Sony e Studio Canal Plus, para citar apenas dois exemplos, respondem por uma infinidade de co-produções realizadas nos EUA. Se Hollywood é porta-voz de alguma coisa, certamente é muito mais de um ideal globalista e multilateralista (para usar um jargão tão ao gosto dos esquerdistas) do que do suposto patriotismo ianque.
 
Isto posto, é natural pensar que os filmes produzidos por Hollywood sejam reflexo dessa visão de mundo. Via de regra, o imaginário presente neles acompanha o imaginário dessa elite globalista, pacifista, multilateral e – por que não lembrar? – antiamericana. O que nos leva à atitude paternalista e indulgente dos filmes com tudo que possa funcionar como contraponto, novamente, a esse suposto “imperialismo norte-americano” cuja presença é muito mais sentida nos filmes do que na própria vida real.
 
Podemos apontar como uma espécie de marco nessa “descriminalização hollywoodiana dos inimigos” o filme “Nova York Sitiada”, onde os terroristas islâmicos apresentados são pouco menos violentos e perigosos que os agentes da CIA (torturadores) e militares (representados pelo personagem de Bruce Willis, uma caricatura de coronel fascista e inescrupuloso).
 
Outro filme que chama a atenção dentro desse contexto é “O Suspeito da Rua Arlington”, uma trama rocambolesca e excepcionalmente bem-conduzida que leva a audiência a desconfiar de todo americano branco, médio e individualista (o vilão escolhido pelo filme).
 
Nos últimos anos, o filme “Syriana” inaugurou uma nova tendência de filmes “sérios” com ambições de “Oscar” cuja abordagem é delirantemente favorável aos extremistas islâmicos. Nele, enquanto todos os personagens norte-americanos são construídos com acurada visão crítica e compostos da ambiguidade que bem caracteriza os seres humanos, o príncipe árabe envolvido na exploração de petróleo é quase um semideus: justo, inteligente, dotado das mais elevadas intenções, e incapaz de cumprir seu destino de redentor da pobreza do Oriente Médio apenas pela influência nefasta dos interesses imperialistas. O jovem terrorista, por sua vez, é uma vítima da injustiça social, um garoto simples e pacífico. Nada mais redutor, desequilibrado e infantil.
 
Leões e Cordeiros” é uma longa compilação de clichês esquerdistas, numa dosagem infeliz e talvez responsável pelo baixo êxito do filme. É sintomático, contudo, que um enredo tão ruim e esquemático possa ter atraído tanta atenção, dinheiro e uma constelação de primeira grandeza entre os atores de Hollywood. As caricaturas estão todas lá: o político republicano ambicioso e maquiavélico (Tom Cruise), a jornalista engrupida e idealista (Meryl Streep), o professor liberal com crise de consciência (Robert Redford). O saldo é pura propaganda esquerdista e antiamericana.
 
No Vale das Sombras” utiliza a guerra do Iraque como pretexto para demonizar os militares americanos e decretar simplesmente a falência de todo um modo de vida (responsável, de resto, pela mais longa tradição de liberdade, paz social e democracia de que se tem notícia). A cena final da bandeira é de uma falta de sutileza constrangedora.
 
Em “O Suspeito”, Meryl Streep encarna o recorrente personagem do agente do governo republicano, inescrupuloso e maquiavélico. Na trama, um islâmico aparentemente inocente é exposto a toda série de provações por uma tola suspeita de seu envolvimento com parentes extremistas. Mais uma vez, nada é problematizado, recorrendo-se o tempo todo ao habitual corolário de idéias prontas e reflexos condicionados. O resultado é sabido: os EUA estão errados e condenados, todos os povos do mundo são vítimas de sua sanha mercantilista e assassina.
 
Convém lembrar, mais uma vez, que o que faz desses filmes uma influência tão sentida na opinião pública é a imensa qualidade humana e artística envolvida em sua realização. Há certamente muitos filmes baratos e de segunda linha onde os vilões são islâmicos – mas sua influência e repercussão é infinitamente menor que a daqueles que efetivamente compõem o imaginário das grandes platéias e determina, de certo modo, o juízo de valor que será criado a respeito de temas importantes como a ameaça do terrorismo e a relativização dos valores ocidentais.
 
O problema e a distorção não residem no fato de que os personagens que representam os EUA, a “direita”, os “republicanos” e os “conservadores” sejam tratados com aguçado senso crítico – mas sim no fato de que os mesmos enredos abordem os outros personagens (o ”islâmico”, o “advogado liberal”, o “jornalista engajado”) de forma completamente diferente: idealizada e ingênua. Cru realismo para um lado e romantismo desenfreado para o outro é, além de má dramaturgia, um tremendo exercício de desonestidade artística e intelectual.



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Comentários (1)
1 Qua, 10 de junho de 2009 17:51
Paulo Barreto
Em artigos como esse, apenas lamento que só esteja presente no espaço virtual. Seria altamente positivo para o público brasileiro encontrar numa banca de revistas um jornal ou uma revista semanal (ou mesmo mensal) que tivesse a coragem de fazer uma abordagem tão realista como essa, a respeito do tema tratado. Mas, um dia, com certeza, chegaremos lá, com fé em Deus.

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