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A utopia burocrática do futebol brasileiro

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O Brasil é um caso único. Enquanto a maior parte dos esquerdistas do mundo tendem a mergulhar seus países em aventuras socializantes em nome dos supostos avanços sociais (“igualdade”, “menos exploração”, “benefícios”), os seus correspondentes brasileiros têm mesmo é obsessão pelo componente burocrático da revolução.

A última novidade desses gênios é obrigar todo cidadão que quiser ingressar num estádio de futebol a tirar uma carteirinha que o identifique como um “torcedor não-violento”. A idéia é injusta, bizarra e disfuncional.

É injusta porque obriga, mais uma vez, que os milhões de cidadãos honestos, ordeiros e cumpridores da lei sejam retaliados por causa da ineficiência do Estado em cumprir seu papel em repreender e tirar de circulação a parcela bem menor de cidadãos desonestos, desordeiros e criminosos. Aqueles já têm de ser cadastrados no registro civil, na Receita Federal, na Justiça Eleitoral, no Sistema Único de Saúde e pela autoridade de trânsito, no mínimo, excetuando-se aí as “carteirinhas” decorrentes de sua eventual atividade empresarial ou profissional.

É bizarra porque  parte de um princípio totalmente equivocado. Quantos crimes são cometidos anualmente em um estádio de futebol, por exemplo, em comparação com a quantidade cometida em padarias ou supermercados? O primeiro número será infinitamente menor que os dois outros. Seria o caso, então, de serem criadas outras carteirinhas para ingresso em estabelecimentos comerciais para os cidadãos notadamente não-criminosos. E por que não restringir a circulação daqueles que não têm carteirinha pelas ruas? Mas isso não seria o equivalente a aplicar a legislação penal já existente de uma forma mais rigorosa?  

É exatamente este o ponto: a violência nos estádios e praças esportivas só existe porque o Estado é incapaz de restringir a circulação de indivíduos perigosos, condenados ou potencialmente violentos. Essa incapacidade estende-se, de resto, por todo o território nacional, e não apenas nos locais de jogos. O folclore psicanalítico quer fazer crer que cidadãos pacíficos transformam-se magicamente em monstros quando pisam num estádio de futebol. Essa idéia fabulosa e cinematográfica pode se aplicar para a Grã-Bretanha, mas certamente não é a realidade brasileira: os tais bandidinhos de torcidas organizadas no Brasil são os mesmos trombadinhas e funções das ruas, e, muitos deles agem livremente assegurados pela impunidade garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente: são menores de idade. Tolos cadastramentos não resolverão todas essas contradições. 
 
A disfuncionalidade da medida, ademais, é facilmente percebida por qualquer pessoa que já tenha comparecido a um estádio de futebol – no Brasil, não na Suíça. Os estádios brasileiros são privadas a céu aberto: desorganizados, sujos e mal-planejados. Adquirir um ingresso tendo simplesmente o dinheiro na mão já é um autêntico suplício e inibidor para uma boa parte dos frequentadores (especialmente os honestos e pacíficos). Os mesmos gênios que imaginam cadastrar 30 milhões de torcedores honestos (em nome de restringir a circulação de 1 ou 2 mil vândalos) são os mesmos incapazes de oferecer a venda antecipada, sem filas, e de inibir a ação de cambistas. A apresentação das carteirinhas seria no momento da venda ou do ingresso ao estádio (acreditem, burocratas geniais do futebol: são dois momentos diferentes)? Se for no momento da venda, cada indivíduo poderá comprar pessoalmente apenas o seu próprio ingresso? Um marido não poderá comprar o da esposa, por exemplo, sem levar sua carteirinha ou ela estar presente? Mas se ele puder comprar com a carteirinha de um terceiro, como garantir que quem irá usar o ingresso será a mesma pessoa identificada pela carteirinha? Bem, aí será necessário controlar a identificação na catraca. Quanto tempo demorará isso? E as filas de 50 mil pessoas de um dia de jogo grande? Não podemos nos esquecer que entrar num estádio de futebol no Brasil ainda é, exceto para políticos e celebridades, um ato de coragem: as filas são perigosas, desorganizadas, há tumulto e maus tratos por parte dos policiais presentes, etc. Imaginem identificar um por um os torcedores ingressantes? 
 
Tudo isto colocado, não podemos nos esquecer de um detalhe: a emissão da segunda via da carteirinha será cobrada, permitindo-se prever uma receita de muitos milhões de reais para as empresas concessionárias do serviço. 
 
O que mais surpreende na história toda é como jornalistas, advogados e especialistas estejam achando a idéia boa. Não, a idéia não é boa: é como a maior parte das idéias concebidas por teóricos e burocratas esquerdistas – inócua e injusta. A saída para diminuir a violência relacionada aos estádios e praças esportivas é a mesma que funcionaria para a violência no Brasil de modo geral: 1.aplicar com rigor os mecanismos já previstos na lei para reprimir e punir as ações criminosas; 2.modificar ou aperfeiçoar a legislação para que indivíduos violentos tenham menor raio de ação para perpetrar novas ações violentas ou cometer outros crimes, independente de sua idade.  
 
Ou seja: prender os bandidos e mantê-los na cadeia, e desestimular que outras pessoas se tornem bandidas pela simples percepção (estimulada por socialistas e militantes protegidos por carros blindados e segurança privada) de que ficarão impunes. Simples assim.



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