Mídia@Mais

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte

O Muro da Vergonha

E-mail Imprimir PDF

Não há  meio mais eficiente de reduzir os homens a mera engrenagem da máquina coletivista do que privá-los da liberdade de movimento.

(Wilhem Roepke)

Existem basicamente dois tipos de muros.  Uns são erguidos para tentar evitar que “visitas” indesejadas adentrem a propriedade particular, enquanto outros pretendem evitar a saída das pessoas.  No primeiro caso estão os muros e cercas construídos para delimitar os terrenos de nossas casas, condomínios, fazendas e outras propriedades em geral.  No segundo, estão os presídios e as jaulas dos animais perigosos.  No primeiro caso, estariam as “políticas” nacionais de imigração e no segundo as de emigração. 
 
O Muro de Berlim, diferentemente do que pretendem fazer crer alguns, fez parte daquele tipo de muro que pretende evitar que as pessoas deixem determinado espaço, quer provisória, quer definitivamente.  Foi um muro de prisão, não de limite de propriedade, como é o caso do muro entre EUA e México ou Israel e Palestina, por exemplo. Nesse aniversário de vinte anos de sua derrubada, não podemos esquecer que o Muro de Berlim representou não apenas uma barreira física entre dois mundos totalmente dististos, mas principalmente a idéia de que, num deles, o indivíduo é prisioneiro do Estado.

Enquanto o Muro esteve de pé, não faltaram intelectuais engajados na defesa do sistema que ele representava.  Mas houve também alguns poucos que travaram contra aquela aberração uma guerra sem tréguas.  Faço aqui uma pequena homenagem a dois deles.
 
Coincidentemente, um dos maiores guerreiros pela liberdade morreu em julho deste ano, sem que a imprensa nativa tivesse dado muita atenção ao fato.  Trata-se do filósofo polonês Laszek Kolakowski, um ex-marxista regenerado que acabou expulso da Polônia e, posteriormente, desde o exílio no Ocidente, foi um dos mentores do Sindicato Solidariedade.
 
Kolakowski era, portanto, o melhor tipo de marxista possível - o ex-marxista -, tendo concluído, depois de participar dela, que a experiência da Cortina de Ferro foi a “grande fantasia do Século XX”, além de que “nunca houve ou haverá aperfeiçoamento possível [desta ideologia] que não seja pago com deterioração, maldade e desgraça”.
 
Seu mais conhecido e influente trabalho foram os três volumes do “Main Currents of Marxism, Its Rise, Growth and Dissolution” (1976-78).  Escrito no exílio, ele descreve a origem, estrutura e desenvolvimento do pensamento dominante do Século XX.  Aquela foi também uma obra profética, escrita num tempo em que o marxismo ainda fornecia a cola ideológica para o, até então, endeusado sistema comunista soviético.  Kolakowski descreveu com objetividade e clareza as principais idéias e diversas correntes do pensamento marxista, “que começou num prometido humanismo e culminou na monstruosa tirania de Stalin”.  Não sem razão, ele considerava o stalinismo não uma aberração, mas, ao contrário, o produto lógico do sistema comunista.

Segundo o polonês, o socialismo podia ser descrito como “uma sociedade na qual um homem está encrencado por dizer o que pensa, enquanto outro obtém privilégios por não dizer o que tem em mente; uma sociedade na qual se vive melhor quando não se tem idéias próprias; um Estado que tem mais espiões do que enfermeiras e mais pessoas nas prisões do que nos hospitais; um Estado onde filósofos e escritores sempre dizem as mesmas coisas que os generais e os ministros – mas sempre depois que estes últimos já se pronunciaram”.  
 
Kolakowski era particularmente severo com os apologistas ocidentais (Sartre, o pessoal da Escola de Frankfurt et caterva) dos regimes marxistas, os quais sugeriam que os progressos econômicos e sociais eventualmente alcançados pelos países comunistas, de alguma forma justificavam as atrocidades cometidas: “A falta de liberdade é apresentada como se fosse temporária.  Os reportes nessa linha dão a impressão de que são fatos não prejudiciais.  Na verdade, eles não são simplesmente falsos, mas absolutamente corrompidos.  Não que nada tenha mudado nesses países, nem que não tenha havido progressos econômicos, mas porque a escravidão política foi instalada no tecido social como a mais absoluta condição de sobrevivência”.  Ele desmistificou a idéia de socialismo democrático como algo contraditório (uma “bola de fogo gelada”), e os modernos marxistas como “meros repositórios de slogans, cujo objetivo é organizar interesses diversos”.

Outro grande intelectual que ousou nadar contra a maré acadêmica da época, especialmente dentro de seu próprio país, foi o francês Jean-François Revel.  Obsecado por demonstrar que o nazismo e o comunismo eram como irmãos siameses, Revel dizia ser inútil tentar descobrir qual dos regimes totalitários do século XX foi o mais bárbaro, porque ambos impuseram a tirania, o pensamento unificado e deixaram como herança uma montanha de cadáveres. O parentesco do comunismo com o nazismo é, para a esquerda em geral, um tema sempre delicado e, como qualquer tabu, sabiamente escamoteado. Por exemplo, quando um ideólogo marxista, como Stalin, se comporta como um carrasco nazista, a explicação é simples: a culpa é do personagem e de seu caráter perverso, nunca do sistema. Stalin seria então um verdadeiro nazista, apenas fantasiado de comunista.

Já o comunismo é diferente, “pois emprega a dissimulação ideológica, veiculada pela utopia. Promete a abundância e provoca miséria; promete a liberdade, mas impõe a servidão; promete a igualdade e leva à mais desigual das sociedades – com a nomenklatura, classe privilegiada a tal ponto como jamais se conheceu, nem mesmo nas comunidades feudais. Ele promete ainda respeito à vida humana, mas realiza execuções em massa; promete o acesso de todos à cultura, mas leva ao embrutecimento generalizado; promete o “novo homem”, mas o fossiliza”.

A repressão em campos de concentração ou em cárceres diversos, os processos sumários e fraudulentos, os expurgos assassinos, as ondas de fome provocadas por programas estupidamente planejados e pavorosamente executados acompanharam todos os regimes socialistas, sem exceção, ao longo da história. Seria fortuita esta associação?” – questiona o velho Revel. “Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi, ou nunca produziu. Que sistema é esse, que dizem ser o melhor, porém dotado dessa propriedade sobrenatural de nunca conseguir colocar em prática senão o contrário do que prega? Que linda cerejeira será essa, na qual, por um acaso incompreensível, só brotam cogumelos venenosos?”

O nazismo e o comunismo cometeram atrocidades comparáveis, tanto por sua extensão quanto por seus pretextos ideológicos. Isso não foi, entretanto, resultado de uma “coincidência fortuita de comportamentos aberrantes”. Ocorreu, muito pelo contrário, porque ambos comungavam os mesmos princípios e idéias fundamentais, sedimentados por convicções pétreas, e – mais importante! – empregavam o mesmo modus operandi. É emblemático o fato – aliás, inconteste – de que tanto uma ideologia quanto a outra sempre defenderam – e nunca esconderam isso – a tese de que os fins justificam quaisquer meios.

Publicado originalmente pelo Instituto Millenium




Reddit! Del.icio.us! Mixx! Free and Open Source Software News Google! Live! Facebook! StumbleUpon! Yahoo! Free Joomla PHP extensions, software, information and tutorials.
 
Comentários (1)
1 Ter, 10 de novembro de 2009 11:59
Leandro Teles Rocha
Muito bom o texto.

Adicionar comentário

Seu apelido/nome:
Comentário:
  Palavras para verificação. Apenas palavras em caixa baixa sem espaços.
Verificação de palavras:

Clique para ver a lista de artigos deste autor

NEWSLETTER



Clipping@Mais

Apostando na crise

Como todo bom ditador, Chávez aposta no acirramento de tensões para desviar de seu governo o foco das atenções.

Leia mais...
 

Pensador, cineasta, escritor e bom de negócio: "cidadania" também tem limite

Você provavelmente já ouviu falar de Sócrates e Platão, mas talvez jamais tenha ouvido falar de MV Bill. Pois bem: para que você não fique desinformado, ele mesmo trata de explicar num comercial de TV que é, entre outras atribuições, um "pensador". Ou seja: ele poupou a humanidade de gastar séculos para decidir se sua "obra" tinha ou não relevância e resolveu carimbar logo a si próprio.

Leia mais...
 

Atriz brasileira aprende a ficar "na moral" em novo momento da democracia brasileira

Regina Duarte é, possivelmente e por tudo que realizou ao longo da carreira, a maior atriz brasileira viva. Mas esse fato por sí só está longe de ser suficiente para garantir a ela duas coisas: trabalho e o direito de dizer o que pensa sobre política.

Leia mais...
 

Enquanto isso, novo órgão da ONU vai pôr preço nos 'serviços prestados' pelo planeta Terra...
 
Objetivo é oferecer aos países uma estimativa do valor econômico de 'serviços naturais' como a polinização.
Leia mais...
 

Senado americano “repensa” esforço para reduzir emissões de CO2

Os Democratas abriram mão da peça central do plano energético de Barack Obama, na medida em que o chamada Cap&Trade não consegue atrair apoio no Congresso americano, cuja maioria é ainda Democrata. Com as eleições em novembro, essa maioria pode diminuir ou até mesmo se inverter.

Leia mais...
 

China ultrapassa Estados Unidos no consumo total de energia

Impulsionada por anos de rápido crescimento econômico, a China é agora o maior consumidor mundial de energia,  desbancando os Estados Unidos, que ocupavam a 1ª posição por mais de um século. Os dados são da Agência Internacional de Energia.  Em 2009, a China devorou 2,252 bilhões de toneladas equivalentes em petróleo, ou cerca de 4% a mais que os EUA, que consumiram 2,170 bilhões de toneladas equivalentes de petróleo. Um  toe (metric ton oil-equivalent) é igual a  11,63 MWh, e representa todas as formas de energia consumida, incluindo petróleo, carvão, gás natura e todas as formas de energia renovável, especialmente a hidroelétrica.

Leia mais...
 

Humor

Análise

Editor Chefe: Roberto Ferraracio
Redação: Paulo Zamboni e Gerson Faria