Não há meio mais eficiente de reduzir os homens a mera engrenagem da máquina coletivista do que privá-los da liberdade de movimento.
(Wilhem Roepke)
Enquanto o Muro esteve de pé, não faltaram intelectuais engajados na defesa do sistema que ele representava. Mas houve também alguns poucos que travaram contra aquela aberração uma guerra sem tréguas. Faço aqui uma pequena homenagem a dois deles.
Coincidentemente, um dos maiores guerreiros pela liberdade morreu em julho deste ano, sem que a imprensa nativa tivesse dado muita atenção ao fato. Trata-se do filósofo polonês Laszek Kolakowski, um ex-marxista regenerado que acabou expulso da Polônia e, posteriormente, desde o exílio no Ocidente, foi um dos mentores do Sindicato Solidariedade.
Kolakowski era, portanto, o melhor tipo de marxista possível - o ex-marxista -, tendo concluído, depois de participar dela, que a experiência da Cortina de Ferro foi a “grande fantasia do Século XX”, além de que “nunca houve ou haverá aperfeiçoamento possível [desta ideologia] que não seja pago com deterioração, maldade e desgraça”.
Seu mais conhecido e influente trabalho foram os três volumes do “Main Currents of Marxism, Its Rise, Growth and Dissolution” (1976-78). Escrito no exílio, ele descreve a origem, estrutura e desenvolvimento do pensamento dominante do Século XX. Aquela foi também uma obra profética, escrita num tempo em que o marxismo ainda fornecia a cola ideológica para o, até então, endeusado sistema comunista soviético. Kolakowski descreveu com objetividade e clareza as principais idéias e diversas correntes do pensamento marxista, “que começou num prometido humanismo e culminou na monstruosa tirania de Stalin”. Não sem razão, ele considerava o stalinismo não uma aberração, mas, ao contrário, o produto lógico do sistema comunista.
Segundo o polonês, o socialismo podia ser descrito como “uma sociedade na qual um homem está encrencado por dizer o que pensa, enquanto outro obtém privilégios por não dizer o que tem em mente; uma sociedade na qual se vive melhor quando não se tem idéias próprias; um Estado que tem mais espiões do que enfermeiras e mais pessoas nas prisões do que nos hospitais; um Estado onde filósofos e escritores sempre dizem as mesmas coisas que os generais e os ministros – mas sempre depois que estes últimos já se pronunciaram”.
Kolakowski era particularmente severo com os apologistas ocidentais (Sartre, o pessoal da Escola de Frankfurt et caterva) dos regimes marxistas, os quais sugeriam que os progressos econômicos e sociais eventualmente alcançados pelos países comunistas, de alguma forma justificavam as atrocidades cometidas: “A falta de liberdade é apresentada como se fosse temporária. Os reportes nessa linha dão a impressão de que são fatos não prejudiciais. Na verdade, eles não são simplesmente falsos, mas absolutamente corrompidos. Não que nada tenha mudado nesses países, nem que não tenha havido progressos econômicos, mas porque a escravidão política foi instalada no tecido social como a mais absoluta condição de sobrevivência”. Ele desmistificou a idéia de socialismo democrático como algo contraditório (uma “bola de fogo gelada”), e os modernos marxistas como “meros repositórios de slogans, cujo objetivo é organizar interesses diversos”.
Outro grande intelectual que ousou nadar contra a maré acadêmica da época, especialmente dentro de seu próprio país, foi o francês Jean-François Revel. Obsecado por demonstrar que o nazismo e o comunismo eram como irmãos siameses, Revel dizia ser inútil tentar descobrir qual dos regimes totalitários do século XX foi o mais bárbaro, porque ambos impuseram a tirania, o pensamento unificado e deixaram como herança uma montanha de cadáveres. O parentesco do comunismo com o nazismo é, para a esquerda em geral, um tema sempre delicado e, como qualquer tabu, sabiamente escamoteado. Por exemplo, quando um ideólogo marxista, como Stalin, se comporta como um carrasco nazista, a explicação é simples: a culpa é do personagem e de seu caráter perverso, nunca do sistema. Stalin seria então um verdadeiro nazista, apenas fantasiado de comunista.
Já o comunismo é diferente, “pois emprega a dissimulação ideológica, veiculada pela utopia. Promete a abundância e provoca miséria; promete a liberdade, mas impõe a servidão; promete a igualdade e leva à mais desigual das sociedades – com a nomenklatura, classe privilegiada a tal ponto como jamais se conheceu, nem mesmo nas comunidades feudais. Ele promete ainda respeito à vida humana, mas realiza execuções em massa; promete o acesso de todos à cultura, mas leva ao embrutecimento generalizado; promete o “novo homem”, mas o fossiliza”.
“A repressão em campos de concentração ou em cárceres diversos, os processos sumários e fraudulentos, os expurgos assassinos, as ondas de fome provocadas por programas estupidamente planejados e pavorosamente executados acompanharam todos os regimes socialistas, sem exceção, ao longo da história. Seria fortuita esta associação?” – questiona o velho Revel. “Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi, ou nunca produziu. Que sistema é esse, que dizem ser o melhor, porém dotado dessa propriedade sobrenatural de nunca conseguir colocar em prática senão o contrário do que prega? Que linda cerejeira será essa, na qual, por um acaso incompreensível, só brotam cogumelos venenosos?”
O nazismo e o comunismo cometeram atrocidades comparáveis, tanto por sua extensão quanto por seus pretextos ideológicos. Isso não foi, entretanto, resultado de uma “coincidência fortuita de comportamentos aberrantes”. Ocorreu, muito pelo contrário, porque ambos comungavam os mesmos princípios e idéias fundamentais, sedimentados por convicções pétreas, e – mais importante! – empregavam o mesmo modus operandi. É emblemático o fato – aliás, inconteste – de que tanto uma ideologia quanto a outra sempre defenderam – e nunca esconderam isso – a tese de que os fins justificam quaisquer meios.
Publicado originalmente pelo Instituto Millenium


















