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Os intelectuais e a sociedade: Parte II

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Aintangibilidade das idéias é tal que chega a ser difícil acreditar que elas tiveram um impacto enorme sobre as vidas de pessoas outras que não os próprios  intelectuais; sobre pessoas que, em muitos casos, deram pouca atenção àquelas idéias. No entanto, tanto idéias seculares quanto religiosas comoveram a muitos – e levaram líderes a mover exércitos.
 
Quando voltamos os olhos para a Inquisição Espanhola, para as Cruzadas do passado e para os Jihads do passado e presente, vemos exemplos assustadores dos efeitos das idéias. Mas as ideologias seculares do século XX mataram muito mais, aos milhões, na Alemanha, Rússia e China – e similarmente na busca de objetivos superiores, ainda que essas idéias tenham sido usadas cinicamente por aqueles no poder, tal como no passado.
 
Se há alguma lição a tirar da história das idéias é que as boas intenções nada revelam a respeito de suas consequências reais. Mas os intelectuais que geram idéias estão livres de pagar pelas consequências.
 
Os intelectuais da academia estão protegidos pela liberdade acadêmica, e nas sociedades democráticas, os jornalistas estão protegidos pelo princípio da liberdade de imprensa. Raramente aqueles que produzem ou espalham idéias perigosas, ou até mesmo fatais, pagam algum preço por isso – não perdem nem sequer a credibilidade.
 
Quem censura ou responsabiliza Rachel Carson, autora de Silent Spring e ícone do ambientalismo, pelo fato de que os seus escritos contra o DDT resultaram no banimento desse inseticida em muitos países ao redor do mundo – banimento seguido do ressurgimento da malária que matou e continua matando milhões de pessoas em países tropicais do Terceiro Mundo?
 
Até mesmo líderes políticos foram julgados por quão nobres suas idéias soavam, em vez de por quão desastrosas foram as suas consequências. Woodrow Wilson – o único presidente americano com um título de Ph.D. – foi um intelectual da academia por muitos anos antes de entrar na política, e suas idéias sobre uma guerra que poria fim às guerras, tornar o mundo seguro para a democracia e o direito de autodeterminação dos povos têm sido reverenciadas em total desprezo pelo que aconteceu quando as noções de Wilson foram postas em prática no mundo real.
 
Ninguém mais leva a sério a idéia de que a I Guerra Mundial foi uma guerra para acabar com as guerras; muitos agora a vêem como a preparação do palco para a II Guerra Mundial. De fato, na época houve quem previsse esse resultado. Mas eles não foram ouvidos, e muito menos tratados como celebridades, tal como o foi Wilson.
 
Igual a muitos outros intelectuais, Woodrow Wilson supôs que se as coisas estavam ruins, [“change”] “mudá-las” iria automaticamente torná-las melhores. Mas os governos autocráticos na Rússia e Alemanha, que causavam tanto horror a Wilson, foram sucedidos por regimes totalitários tão opressivos e assassinos que fizeram com que os déspotas anteriores parecessem até bonzinhos.
 
Quanto à autodeterminação dos povos, na prática isso significou que os destinos de povos inteiros foram determinados por estrangeiros – entre eles Woodrow Wilson, que participou do desmembramento de impérios, com medonhas consequências nos anos 1930, quando Hitler destruiu uma a uma as pequenas e vulneráveis nações recém-criadas, uma operação que lhe teria sido muito mais perigosa se ele tivesse tido de enfrentar impérios mais vastos,  dos quais essa nações faziam parte antes da I Guerra.
 
Até hoje experimentamos as consequências da dilaceração do Império Otomano, que entre outras coisas, resultou na criação de estados muito mais instáveis no Oriente Médio.
 
Mas as palavras de Woodrow Wilson soavam grandiosas – e é por esse parâmetro que ele e outros intelectuais são julgados.
 
Pode parecer estranho que tantas pessoas de grande intelecto tenham dito e feito tantas coisas cujas consequências têm sua classificação variando de contraproducentes a catastróficas. Todavia, isso não é tão surpreendente quando nos perguntamos se, de fato, alguém já teve o alcance e a amplitude de conhecimentos requeridos para tomar os tipos de decisões abrangentes tão ao gosto dos intelectuais, especialmente quando nada sofrem quando erram.
 
Com muita frequência, os intelectuais e seus seguidores ficaram excessivamente impressionados pelo fato de que os intelectuais, na média, tendem a possuir mais conhecimento que outros indivíduos em suas sociedades. O que eles não perceberam e não percebem é que os intelectuais têm muito menos conhecimento do que o conhecimento total possuído pelos milhões de pessoas a quem eles desdenham e cujas decisões procuram cancelar.
 
Nós tivemos de conhecer as consequências das prerrogativas das elites do jeito mais difícil – e muitos de nós ainda precisamos aprender essa lição.
 
Tradução: Henrique Dmyterko
 
Título original: Intellectuals and Society – Part II
 
 
Para saber mais a respeito de Thomas Sowell, visite www.tsowell.com

 

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Comentários (2)
2 Qui, 18 de fevereiro de 2010 16:29
Van Gomes

A grande falha de Sowell é abstrair o grande traço de nossa época que é a disputa entre o socialismo e o capitalismo. A "permeação" e "penetração" das ideias socialistas empreendidas ainda no final do sec 19 pelos sociedade fabianos, capturou ambos os partidos para a sua causa, o que explica porque até hoje eles se comportam como irmãos gêmeos, mas firmes no caminho do socialismo americano. Woodrow Wilson era um socialista fabiano, tanto foi Kennedy. Quem quiser entender melhor siga este link.http://mises.org/books/Fabian_Freeway_Martin.pdf

1 Qua, 03 de fevereiro de 2010 13:10
Edmund Burke

Realmente, o livro tem de ser traduzido! "Idéias têm consequências", e muitas das idéias de acadêmicos desconectados da realidade quando foram implementadas causaram muito sofrimento às pessoas.

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