Há cerca de 40 anos, surgiu um movimento social para destruir o sistema. As pessoas que imprecisamente chamamos de Nova Esquerda queriam derrotar o Homem, devolver o poder ao povo, derrubar as elites e liderar uma revolução.
Agora surgiu outro movimento social. As pessoas que imprecisamente chamamos de membros do Tea Party também querem destruir o sistema. Elas também querem derrotar o Homem, devolver o poder ao povo, derrubar as elites e liderar uma revolução.
Existem muitas diferenças entre a Nova Esquerda e o Tea Party. Uma estava na esquerda, o outro está na direita. Uma era boêmia, o outro é burguês. Uma foi motivada pela guerra, o outro é motivado pelos gastos federais desembestados.
Uma foi para Woodstock, o outro está mais propenso a ir para o Wal-Mart.
Mas as semelhanças são mais impressionantes do que as diferenças. Para começar, os membros do Tea Party adotaram as táticas da Nova Esquerda. Eles se dedicam ao teatro de rua, comícios, passeatas e discursos radicais que são criados para tirar a sociedade instruída de seu estupor. Essa cópia não é coincidência. Dick Armey, um dos porta-vozes do Tea Party, elogiou recentemente os métodos de Saul Alinsky, o principal estrategista da Nova Esquerda.
Atualmente, as mesmas pessoas que estão comprando o livro de Alinsky Rules for Radicals (Regras para os Radicais na Amazon.com estão, de acordo com a empresa, comprando também livros como Liberal Fascism (Fascismo Liberal), Rules for Conservative Radicals (Regras para Radicais Conservadores), Unholy Alliance: Radical Islam and the American Left (Aliança Demoníaca: O Islã Radical e a Esquerda Norte-Americana) e The Shadow Party: How George Soros, Hillary Clinton, and Sixties Radicals Seized Control of the Democratic Party"(O Partido Fantasma: Como George Soros, Hillary Clinton e os Radicais dos Anos 60 Assumiram o Controle do Partido Democrata). Estes dois últimos foram escritos por David Horowitz, que foi um destacado polemista da Nova Esquerda na década de 60 e hoje é um destacado polemista de direita.
Mas a ligação principal é esta: membros de ambos os movimentos acreditam no que se pode chamar de inocência das massas. Ambos os movimentos foram organizados na suposição de que as pessoas são puras e virtuosas e que o mal é introduzido na sociedade pelas elites e pelas estruturas autoritárias apodrecidas. "O homem nasceu livre, mas em toda parte está acorrentado", como afirma Rousseau.
Por causa dessa suposição, membros dos dois movimentos acreditam bastante em teorias conspiratórias.
A esquerda dos anos 60 desenvolveu teorias elaboradas de como a história do mundo estava sendo manipulada por sombrias redes imperialistas-empresariais – teorias que sobrevivem nas obras de Noam Chomsky. Em sua curta vida, o movimento Tea Party desenvolveu uma série estúpida de teorias conspiratórias envolvendo o Fed, o FBI, os grandes bancos, as grandes corporações e os helicópteros pretos.
Por causa dessa suposição, membros do direitista Tea Party, como os membros da Nova Esquerda, gastam muito tempo temendo serem cooptados. Eles temem que as forças corruptas do sistema estejam sempre tentando se infiltrar na pureza de seus quadros.
Por causa dessa suposição, membros de ambos os movimentos têm problemas com a autoridade.
Os dois têm majoritariamente uma agenda negativa: destruir as estruturas corruptas, derrotar o sistema. Como a Nova Esquerda, o Tea Party não tem planos claros sobre o que fazer após o momento dourado da libertação pessoal, quando derrubar o leviatã federal.
Há pouco tempo um texto na Salon, brilhantemente, comparou Glenn Beck com Abbie Hoffman. Nele, Michael Lind observou que os conservadores nos anos 1960 e 1970 montaram uma defesa do sistema – uma rede de centros de estudos, grupos de ativistas, associações acadêmicas e líderes políticos que iriam formar os quadros conservadores, promover ideias e políticas conservadoras.
Mas os membros do Tea Party estão mais próximos da Nova Esqueda. Eles não procuram formar uma defesa do sistema porque não acreditam no sistema nem nas estruturas de autoridade. Acreditam no levante espontâneo da democracia participativa. Acreditam na ação de massas e nas políticas das barricadas, não em estruturas ou em organizações.
Como um ativista escreveu recentemente num blog do Tea Party: "Rejeitamos a ideia de que o Movimento Tea Party seja 'liderado' por outro que não seja os milhões de cidadãos médios que o formam".
É por essa razão que tanto a Nova Esquerda quanto o movimento Tea Party são radicalmente anticonservadores.
O conservadorismo é construído na ideia do pecado original – na suposição da falibilidade humana e na dúvida. Para remediar nossa condição decaída, os conservadores acreditam na civilização – nas estruturas sociais, instituições permanentes e autoridades justas, que incorpora o sabedoria acumulada de séculos e estrutura os anseios individuais.
Essa ideia foi rejeitada nos anos 60 por pessoas que depositavam sua fé em paixão e fanatismo desenfreados.
A Nova Esquerda na época, como o Tea Party agora, tinha uma razão legítima sobre o fracasso da classe dirigente. Mas eles a arruinaram com sua própria negligência, farisaísmo e radicalismo ingênuo.
Os membros do Tea Party não vão assumir o controle do Partido Republicano, mas parece que o estilo político dos anos 60 estará sempre conosco – primeiro na esquerda e agora na direita.
Publicado pelo Diário do Comércio em 08/03/2010



















P.S.: se alguém quiser saber o quanto esse Brooks é "conservador": http://en.wikipedia.org/wiki/David_Brooks_%28journalist%29. O sujeito é feminista, pró-controle de armas, é contra a defesa da redução do Estado pelos republicanos por isso ser "eleitoralmente ruim" e "obsoleto" e o pior: é "pró-escolha"... pró ABORTO!!! Leiam e tirem suas próprias conclusões!
Prezado Davi
obrigado pelo seu contato, amigo.
Sem a menor dúvida o colunista Brooks é o tipico "liberal" americano, perfil adequado para o NYT, jornal onde escreve.
Mesmo assim resolvemos publicar seu artigo por considerar que é interessante que nossos leitores percebam como a argumentação de um esquerdista aparentemente ponderado pode distorcer os fatos até que esses se encaixem em seus pontos de vista. Quando a chamada Nova Esquerda surgiu, foi saudada por muitos esquerdistas americanos como um avanço diante do status quo, apoiada por intelectuais supostamente importantes e por muitos grupos de pressão fortes, e não como um tipo de seita exótica como Brooks escreve. Além do mais, como bem lembrou um outro leitor, o Tea Party não utiliza a violência como instrumento de ação, bem diferente de muitos dos adeptos da Nova Esquerda, para quem o terrorismo, assassinato e agressividade retórica que ultrapassavam as raias do absurdo eram instrumentos legítimos de luta.
Um abraço e convidamos o amigo a continuar prestigiando o MÍDIA@MAIS com seus comentários e visitas.
Paulo Diniz Zamboni - Editoria MÍDIA@MAIS
Embora até que faça algum sentido a argumentação do sr. Brooks, a grande diferença entre o Tea Party e a chamada Nova Esquerda é que o movimento conservador popular não é obra de intelectuais fanatizados por ideologias radicais coletivistas e nem está usando a violência e o terror como instrumento de luta.