"Não perguntamos aos arquitetos como se salva as mil pessoas que vivem nas ruas da região [Luz, onde será construído o teatro]. Eles estão aqui porque a região é deserta. O Brasil pode virar uma Suíça, mas essa população sempre existirá"
João Sayad, secretário estadual da Cultura
Na atualidade brasileira, o tal clamor que vem das ruas só é ouvido e respeitado quando pode servir de arma para a esquerda viabilizar suas estratégias de poder. De resto, nenhum governante dá a mínima para o que querem ou deixam de querer seus potenciais eleitores. Na confrontação com o poder, valem mais meia dúzia de chatos engajados, dezenas de telefonemas e uma centena de palmadinhas nas costas, do que 500 mil votos. Cidadão só presta em dia de eleição.
Para quem não é de São Paulo, a região é um pedaço do centro velho da capital, deteriorada pela ação do tempo e pelo descaso administrativo, onde os pobres moradores e comerciantes são obrigados a conviver, lado a lado e dia e noite nas ruas, com toda sorte de viciados perigosos, traficantes e trombadinhas, a respeito dos quais tanto o governo estadual quanto o municipal já desistiu de tomar providências. A Cracolândia configura-se num fenômeno tipicamente paulistano, assim como as favelas no caso do Rio de Janeiro. Aos poucos, ela vai sendo incorporada ao imaginário cultural da cidade. Não deve demorar o dia em que turistas idiotas farão caminhadas guiadas para conhecer os viciados morrendo pelas ruas.
O próprio secretário da Cultura, João Sayad, admite que o projeto não eliminará a Cracolândia, que será naturalmente migrada para os bairros vizinhos. O projeto está orçado em mais de 300 milhões de reais e a impressão que fica é que o Estado tem máquinas de produzir dinheiro, e nenhum senso de prioridades. O clichê usado pela Prefeitura e pela polícia do estado é que a Cracolândia é um problema social e de saúde pública, e que não se pode simplesmente “prender” quem resolve se matar e oferecer perigo aos outros consumindo drogas no meio da rua. Se de fato o problema é apenas este, por que então não usar os 300 milhões de reais para instalar, na mesma área do centro cultural e em lugar dele, um centro de referência em saúde, em recuperação e desintoxicação de viciados em drogas que não têm para onde ir, com atendimento multidisciplinar, assessoria jurídica e assistência social, 24 horas por dia, 7 dias por semana?
A resposta é simples e cruel: porque, a bem da verdade, político nenhum dá a mínima para esses viciados, nem tampouco para os moradores da região, pagadores de impostos e esquecidos pelas autoridades, vivendo num cenário de filme de zumbi, sem poder sair às ruas após o dia acabar, com medo de serem atacados impunemente por alguém que não responde por seus atos e que, fatalmente, sequer será responsabilizado pelas violências que perpetrar.
Políticos como esses só dão ouvidos ao que podemos chamar de “lobby dos bonitinhos”: um punhado de atravessadores profissionais que têm acesso aos gabinetes dos vereadores e deputados, que conseguem agendar reuniões de suposto ”interesse público” e que, dessa maneira, pautam vigorosamente as políticas públicas: de forma até a convencer os administradores de que uma cidade como São Paulo necessita mais de um centro cultural de “dança e ópera” do que de resolver minimamente uma ameaça mortal à saúde pública e à segurança dos cidadãos que pagam impostos e vivem acuados, com medo e explorados por tributos sobre suas propriedades que o mesmo Estado desistiu de proteger.
Não há dúvida, também, de que da mesma forma como a sociedade não é capaz de absorver a mão-de-obra e as necessidades dos viciados e dos moradores dessas regiões devastadas, não é tampouco de absorver a mão-de-obra de artistas, dançarinos e agentes culturais que precisam do subsídio do Estado para viver confortavelmente, amparados em empregos estáveis e bolsas de estudo e de trabalho. Ou seja: o Estado faz uma escolha nítida, entre salvar a vida dos viciados e dos moradores, ou permitir que os “artistas” sem platéia vivam com conforto, optando pela segunda alternativa.
A construção e a manutenção de um centro cultural de 300 milhões de reais permitirá que uma centena de privilegiados progridam e façam negócios a partir do dinheiro público, não importando que eles estejam cercados de miséria, degradação e desespero por todos os lados. O projeto arquitetônico prevê salas de espetáculo envidraçadas: por dentro, o luxo e a ostentação de uma minoria privilegiada, que tem acesso e influência sobre o destino do erário público; lá fora, olhos esbugalhados, bocas escancaradas, viciados e contribuintes, lutando por uma vida sem sentido, escravizados pelo regime tributário, esquecidos pelo contexto cultural, atrasados para o trem da História. Alguns chamam a isso de “política pública para a cultura”. Eu prefiro chamar de morbidez mesmo.
O que fazer com esses seres humanos ?
Pensando melhor sobre o assunto, o Serra e sua equipe poderiam pensar em construir as duas coisas, seria mais coerente. Um centro de recuperação e o centro cultural.. SERÁ QUE TEM ESPAÇO?
Ora, esse tipo de degradação existe em qualquer grande cidade do mundo mesmo nos países mais ricos. Já liberaram até locais de "pico" em muita cidade na Europa. Existem milhares de pobres QUERENDO uma oportunidade de curso profissionalizante, com capacidade, e sinceramente interessado em sair da miséria para uma vida digna. Aprovo a medida do Serra. Ao menos tira essa gente de um espaço público que está sendo resgatado para usos mais nobres. Como se fazer alí um posto de atendimento e "recuperação", fosse sanar o problema! Com certeza assaltariam o posto e seus funcionários ficariam dementes em menos de um mes. Há aqueles que saem da sujeira e buscam a redenção porque acordam para a realidade. Estes podem ser ajudados com chance de sucesso.
A pergunta que não quer calar é : Estas pessoas querem se curar, querem ser ajudadas?, sabem que tem profundos problemas de saude física e mental ? É certo que oferecer "panis et circus" aos circunvizinhos da cracolandia não demonstra sensibilidade da parte dos Governantes, tampouco é certo praticar assistencialismo seja ele esquerdista, liberal, materialista ou messianico. Penso que é preciso oferecer oportunidades de auto-ajuda a estes cidadãos.
Disto tudo eu só posso vislumbrar que os futuros frequentadores deste Centro Cultural, como de praxe acontece em todas as grandes metrópoles, continuarão a passar por perto dos "crackeiros" e fingir que não têm nenhum medo ou preconceito, só para serem politicamente corretos, igual àquela cena do filme "Crash, no limite" em que a Sandra Bullock e seu marido, o ator "Brendon Frison" ao sair de um teatro ou coisa parecida, depara-se com um cara , e ela tenta esconder que não tem nenhum medo de gente que tem aparência de bandido...mas depois ela se arrepende, pois ele não só tinha aparência, ele era mesmo.
Com tudo isso, me recordo o que há 700 a.C. já predisse o profeta Isaías (10:1-2) : "Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades; para privarem da justiça os necessitados, e arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos! Depois eu me pergunto, como também fez o salmista: "Pode acaso associar-se contigo o trono de iniqüidade, que forja o mal tendo a lei por pretexto? Eles se ajuntam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente" (salmo 94: 20-21) Uma coisa me conforta: "Mas o juízo voltará a ser feito com justiça, e hão de segui-lo todos os retos de coração." (salmo 94:15)
Só para lembrar: vide a "cidade da música" construída pelo prefeito César Maia do Rio de Janeiro, ali também se despejou milhões de reais no esgoto, fonte de roubalheira sem fim. Essa turma de privilegiados com acesso direto aos governantes, não querem outra coisa senão esbulhar à Nação.
No fim das contas tudo não passa de uma imensa desculpa para sustentar os tais "artistas" engajados, incapazes de trabalhar e produzir na iniciativa privada e que escondem isso sob toneladas de discursos politicamente corretos e esquerdismo maluco. Aliás, belo trabalho o do PSDB e DEM em São Paulo, dando continuidade ao saque dos cofres públicos para sustentar os esquemas desses parasitas, como se tivessem sido eles que elegeram os Serra e Kassabs da vida, e não uma classe média de saco cada vez mais cheio dessa situação e que é sistematicamente desprezada por aqueles em quem votou.
Há um mito corrente entre os meandros da cultura estatal que prega que a cultura tem um papel civilizador por si só. Os fumadores de crack iriam parar de fumar crack tamanho o encantamento com os espetáculos culturais. Os traficantes que ali arregimentam seus distribuidores se sentiriam tocados no fundo de suas almas pelo poder persuasivo da arte. Os proxenetas que controlam a prostituição no parque da Luz passariam a ver a mulher sob uma ótica mais humana. Só sendo idiota para crer que as políticas culturais podem contra a violência. Não consta que a instalação da Sala São Paulo ou da Estação Pinacoteca ou do Museu da Língua tenham diminuido o número de fumadores de crack, bandidos e zumbis daquela região...