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Che: el Argentino

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Por insistência de um amigo cinéfilo, vi a primeira parte do filme-propaganda “Che” (Che: el argentino), de Steven Soderbergh, cineasta que faz hora e vez no pedaço faturando em cima de causas “politicamente corretas”. Vi, e logo me arrependi, pois o longo comercial sobre a revolução de Castro e aliados, para além de ser um enfadonho clichê, é também produto extremamente mentiroso. (A segunda parte da exegese sobre a guerrilha de Guevara na Bolívia, que leva mais duas horas, não me pegará: minha cota de tolerância se extinguiu).

Certo, caro leitor, mentira e revolução são, em essência, irmãs siamesas – mas a incensada revolução de Castro, em especial, pela quantidade abusiva da invencionice arquitetada, excede qualquer expectativa. Com efeito, em torno de “la revolución cubana”, os comunistas e seus agentes culturais construíram uma tão monstruosa cadeia de embustes, que fica difícil, senão impossível, diante dela o leigo não sucumbir. (Basta ver que, apesar do completo fracasso da experiência sanguinária, ainda cresce o número de pessoas que, a cada instante, mergulhadas numa estranha espécie de psicopatia, nela passam a acreditar).  

No caso do filme de Soderbergh – baseado nas “Passagens da Guerra Revolucionária”, do próprio Guevara, contando com roteiro do “companheiro de viagem” Peter Buchman (corrigido, antes das filmagens, por censores “especialistas” do Centro Che Guevara, em Cuba) – a falta de compromisso com a verdade tornou-se tão visível, que nem mesmo os escribas do “Granma”, depois de sua exibição em Havana, conseguiram livrar a cara: “A obra não tem fidelidade absoluta aos feitos históricos” – diz o jornal do PC cubano. “Tratam a figura revolucionária (Che) de forma respeitosa e admissível, mas carece de emoção. Algumas reações têm tons falsos e são imitações dramatizadas demais, sobretudo nas cenas em que aparecem Fidel e Camilo Cienfuegos. Os feitos (narrados) viraram um mostruário dos primeiros anos da revolução, mas falta (ao filme) carisma e profundidade”.        

(Quer dizer: nem seguindo a cartilha oficial da ditadura de Castro, antecipadamente consultada, o spaghetti-propaganda – rodado na Espanha e pago com os bem nutridos recursos do comunismo internacional – consegue convencer).   

Mas em que o “Che” de Soderbergh mente? Eis a resposta: em tudo. Do primeiro ao último fotograma, nada do que o filme projeta – sem porejar o mínimo contraditório – deixa de ser uma manipulação grosseira dos fatos, coisa em que os comunistas, sejamos justos, são indiscutíveis mestres. Um exemplo: no início do filme, uma cena de arquivo registra solenidade em que Fulgêncio Batista sorri ao lado de pretensa autoridade americana, dá a entender ao espectador que o “imperialismo ianque” segurou o sargento-ditador no poder.

Muito bem. Pode-se ventilar que a presença do governo americano por trás de Batista já é uma verdade consolidada no inconsciente coletivo, não é mesmo? No entanto, é bom ressaltar, ela não passa de uma mentira deslavada, que filmes de propaganda made-to-measure por Soderbergh et caterva só ajudam a estabelecer como verdade histórica inquestionável a verdade que se fez lenda perniciosa, necessária à manutenção do mito, mas que soterra os fatos tais como ocorreram. E os fatos, neste caso, bem documentados nos arquivos do Congresso americano,  foram os seguintes.

No inicio de 1960, o ex-embaixador dos Estados Unidos em Cuba, Earl T. Smith, em depoimento prestado ao Senado sobre o papel do Departamento do Estado e da CIA junto ao exército rebelde, declarou de peito aberto: “Nós colocamos Castro no poder, e agimos a seu favor tanto no aspecto moral quanto material”.

Antes, em 1959, ao tempo em que o governo americano embargava o envio de armas para as tropas de Fulgêncio Batista, o embaixador Smith, em pessoa, pressionava para que o ex-sargento telegrafista deixasse o País, negando-lhe, quando solicitado, a concessão de exílio nos Estados Unidos. Por sua vez, Robert Weicha, agente da CIA em Santiago de Cuba, afirmava na Comissão de Justiça do Congresso,  depois da fuga de Batista: “Eu e meu estafe éramos todos fidelistas. Todo mundo na CIA e todos no Departamento de Estado eram pró-Castro”.

(Convém ainda lembrar ao leitor que os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer oficialmente o governo de Castro, afiançando-lhe, em seguida, subsídio de U$ 200 milhões – uma bagatela se comparado aos bilhões de dólares que a gang de Castro e Guevara roubou dos empresários cubanos e americanos então em fuga da ilha-cárcere).

Outra patacoada do filme diz respeito à tomada da cidade de Santa Clara, o grande feito militar de Guevara. Pois bem, ele não existiu, ou melhor, tudo não passou de um blefe: diante do descarrilamento de um trem que transportava armas, nos arredores da cidade, o Che, usando da malandragem portenha, levou o comandante adversário a acreditar que os seus 500 soldados estavam cercados por 2.300 guerrilheiros, quando na realidade a guerrilha não tinha mais de 300 homens. De posse das armas transportadas no trem, e com a fuga da guarnição militar do governo em queda, tomar Santa Clara não passou de um piquenique.

A produtora de “Che”, Laura Brickford, comunista articulada, prefigurando Gramsci, abriu o jogo sobre as suas pretensões revolucionárias: “Os valores de Che Guevara são universais e o filme tenta levantá-los; a questão é como implementá-los de uma forma diferenciada. O objetivo do filme é levantá-los novamente”.

Ou seja: incensando o mito, Lady Laura quer ver pelo mundo mais ditaduras sangrentas, como as que foram impostas pelos irmãos Castro (com a coadjuvação do Che), que só levaram o povo cubano ao sofrimento, à fome e à ausência da mais tacanha liberdade, inclusive a de ir e vir, tal como demonstra o caso recente dos dois boxeadores exilados nos Estados Unidos.

O que fazer com uma gente assim?




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