É recorrente, especialmente em tempos de crise, a velha falácia de que os mercados falharam e por isso é preciso que os governos intervenham para corrigi-los e reorientá-los. Ora, para que algo falhe é preciso que não atinja o objetivo para o qual foi projetado, ou que seria capaz de alcançar caso trabalhasse com precisão. Por exemplo: um relógio que não marca a hora, um carro que não anda, um jogador de futebol que chuta para fora, mesmo embaixo do gol vazio, uma empresa que não obtém lucro em suas atividades.
O mercado não é um objeto, um sujeito, uma organização. Dele não se pode esperar que atinja determinado objetivo previamente programado ou que funcione perfeitamente. O mercado é um processo complexo e espontâneo, que envolve o intercâmbio de produtos e serviços em larga escala. Um processo, derivado da divisão do trabalho, em que cada agente planeja e age buscando satisfazer os respectivos interesses.
Quando alguém alega que “o mercado falhou”, atribui a este mero conceito abstrato determinadas obrigações e objetivos que o dito cujo jamais poderia satisfazer. O mercado não existe, como acreditam alguns, para suprir as necessidades de todos, dar emprego e bons salários a cada um ou transformar-nos em seres igualmente inteligentes, sagazes, dedicados e, conseqüentemente, ricos e prósperos. Ele tampouco pode evitar que os indivíduos façam escolhas erradas, tenham desejos e ambições diferentes, trabalhem, consumam ou poupem uns mais do que os outros. Como se vê, são os seres humanos – essas eternas vítimas de seus próprios impulsos e paixões – que falham. A liberdade de escolha é que traz embutida a possibilidade de equívocos.
Seria ótimo se os servidores públicos e os políticos, ao assumir seus cargos, fossem ungidos por Deus com as virtudes irrestritas da sabedoria, da honestidade, da abnegação, da lealdade, do altruísmo, além de vacinados contra os vírus altamente infecciosos da lambança, do egoísmo, da arrogância e da vaidade. Como a realidade, infelizmente, é muito diferente disso, a melhor receita ainda é a liberal, que consiste em restringir ao mínimo o poder concedido ao Estado e, conseqüentemente, aos seus falíveis mandatários. Nossos próprios erros já nos bastam - e custam-nos caro.
Por que pagar também pelos erros de gente que, na grande maioria das vezes, não está nem aí para quem paga a conta?
Publicado por O Globo em 09/04/2009



















Parabéns, Mauad! Um ótimo artigo, como de costume.