Mídia@Mais

  • Aumentar tamanho da fonte
  • Tamanho da fonte padrão
  • Diminuir tamanho da fonte

Gagáspari e a privataria

E-mail Imprimir PDF

Ocolunista Elio Gagáspari sempre se mune do pior de seu (pouco) senso de humor quando trata do assunto privatizações. Começa por chamar o processo de privataria e vai destilando verrinas por todo o texto, o que ocorre com razoável frequência em suas colunas de domingo e quarta-feira no jornal O Globo.
 
Para o ilustre colunista ítalo-brasileiro, o mínimo que merece o processo de privatização é uma reedição dos tribunais da inquisição para punir com o fogo do inferno aqueles que ousaram levar a cabo tamanho sacrilégio.
 
Gostaria de contar minha experiência com o processo de privatização para que os leitores do Mídia@Mais tenham uma visão mais clara do que aquela que nos passa o iracundo colunista. De antemão, há uma coisa que gostaria de esclarecer: jamais fui acionista, tive parentes ou amigos envolvidos no referido processo, assim não me trouxe ele nenhuma vantagem direta ou indireta. Melhor dizendo: trouxe sim, como vão poder constatar os leitores deste artigo.
 
Em 1992, eu divorciei-me e, ao montar uma nova casa, saí em busca de um telefone. Assim como milhões de brasileiros que buscavam ter um telefone em casa e não estavam dispostos e esperar por anos, fui aos classificados de jornal e procurei por alguém que tivesse um telefone para vender no bairro de minha nova residência. No dia marcado, encontrei-me com o vendedor e fomos a um bar nas proximidades da filial da Telerj em Copacabana. Um detalhe chamou-me a atenção: ele trazia em um saco de supermercado um aparelho telefônico. Explicou-me que era muito importante ter o aparelho que era cedido ao usuário pela Telerj. Sem ele era impossível de se executar a transação. A razão disto? Nunca soube a explicação! Lá, entreguei-lhe o equivalente a dois mil dólares (que na época era um bocado de dinheiro) e nos dirigimos a Telerj para efetuar a venda, que na verdade era uma cessão de direitos. No fim de quase uma tarde de trâmites burocráticos, saí orgulhoso e aliviado por ter-me tornado merecedor do que era então quase uma bênção dos céus. Mas a novela estava longe de terminar: pluguei o aparelho na tomada e tentei discar um número. Nada! O maldito telefone, que me custara o equivalente a uma semana de férias no exterior, estava empedernidamente mudo. Precisou mais uma semana, uma visita à Telerj e alguns telefonemas (do escritório) para o aparelho funcionar.
 
Em 1998, a empresa em que trabalhava me transferiu para a sua matriz no exterior, onde permaneci por cinco anos. No decorrer desse tempo, um amigo que ficara cuidando de meus negócios no Brasil telefonou-me perguntando quais eram meus planos para o telefone já que eu colocara o imóvel à venda. Disse-lhe que nada e ele perguntou se eu não gostaria de doá-lo a uma parenta dele. Disse que a telefonia havia sido privatizada e que ninguém mais precisava vender ou comprar linhas telefônicas e que era mais fácil transferir a linha para alguém do que cancelar o serviço. Com a procuração que lhe deixara, o assunto foi rapidamente resolvido.
 
Corta para o final de 2003, quando retornei ao Brasil definitivamente. Voltei à Telerj, então privatizada, com o nome mudado para Telemar e expliquei que precisava de uma linha. Para minha surpresa, embora fosse uma cidade do interior, o funcionário me avisou que a linha era digital e eu poderia usá-la para conexão de internet em banda larga. Para mais surpresa ainda, no dia seguinte estava um funcionário da telefônica dependurado no poste em frente a minha casa e em minutos eu estava novamente conectado com o mundo.
 
Parece-me que, para o senhor Gaspari, o correto era se esperar, como meu pai esperou, por cinco longos anos para ter um telefone em casa, isto depois de ter pago, à vista e adiantado, um maldito plano de ações que os estatecas engendraram e, num passe de mágica, converteram em pó. Quem se lembra da dificuldade que era se obter um celular no início dos anos noventa do século passado? Recentemente, eu vi um trabalhador rural mourejando no campo enquanto falava no celular. Em poucos anos, o Brasil tem hoje quase um celular por habitante, coisa de 180 milhões de aparelhos.
 
E o que há ou houve de errado com a privatização? Na minha opinião, o que pode ter havido de errado tenha sido as costumeiras matrocas envolvendo qualquer coisa que o executivo ou o legislativo façam e que os jornais publicam quase todo o dia. Como na velha piada, o problema não era o sofá, mas o uso que se estava fazendo dele.

Vale relembrar: a função do Estado é prover saúde, educação básica e segurança. E o Estado, pelo menos o Estado Brasileiro, falha miseravelmente nas três, certamente por ficar se metendo a procurar petróleo, fazer aço, prover eletricidade, telefonia, etc, etc, etc.




Reddit! Del.icio.us! Mixx! Free and Open Source Software News Google! Live! Facebook! StumbleUpon! Yahoo! Free Joomla PHP extensions, software, information and tutorials.
 
Comentários (11)
11 Dom, 21 de fevereiro de 2010 23:35
gds

Vejo que não fui bem preciso na colocação sobre o caso. A questão central é a uma empresa estatal que gerava arrecadação ao Estado, e um segundo ponto; investimnentos realizados para que mesmo que ficasse nas mãos do poder público gerariam as consequentes melhorias proporcionadas pelas empresas privadas, além de ter sido vendida por valor muito abaixo do que o propriamente devido(apreça-se um fusca velho pelo valor de um fusca velho, e um veículo com melhorias pelo valor devido). Cumpre também frizar a questão da evasão de divisas e uma política de neo-colonialismo. Um basta a esta condição sectária e imperialista. Movimento Nacionalista já.Zeitgeist neles.


Prezado GDS


Sentimos muito, mas vc continua não dizendo coisa com coisa, apenas repetindo a cantinela nacionalista, que, neste caso, poderia ser resumida assim "mesmo que seja uma porcaria, que dá retorno baixo ou nenhum retorno e não atende o público, pelo menos a porcaria é nossa..."


Bela linha de argumentação essa, onde o cliente, fim último de qualquer empresa, pública ou privada, é subordinado a obscuros interesses e falácias - por exemplo a arrecadação propiciada por empresas privadas é muito maior do que por uma Estatal falida, sujeita a ajustes contábeis políticos, já que possui muito mais clientes, serviços, etc., pagando pelo uso e instalação de seus produtos. É matemática simples: mais serviços e produtos vendidos, maior a arrecadação, e se houvesse uma carga tributária menor, tal arrecadação seria ainda maior do que é hoje.


O resto é conversa sem sentido.


Editoria MÍDIA@MAIS

10 Sex, 19 de fevereiro de 2010 20:55
GDS

Bem, trabalhava em empresa de telecomunicação em Santa Catarina nos idos de 1998, acompanhando toda operação de transição do público para o privado.Recordo-me que as teles foram vendidas por valor inferior ao que havia sido investido, ou seja, não retiraram nem o capital investido na digitalização do sistema.Ouvi dos próprios engenheiros, à época, que a melhoria dos serviços era uma consequencia dos recentes investimentos.Sou a favor de privatização apenas naqueles casos de ineficiência irrefutável.


Prezado GDS:


o grande ponto que algumas pessoas parecem ignorar é que as empresas estatais de telecomunicações existiram - ou ainda existem - durante décadas, sem que nunca tenham atendido o público de forma adequada, criando um sem-fim de problemas para o usuário. Investimentos mínimos são necessários para que uma venda seja efetuada, pois ninguém quer comprar sucata estatal por preço de mercado.


Em outras palavras, não é possível e racional esperar vender um Fusca enferrujado pelo valor de uma Ferrari simplesmente porque foi feita a troca dos parafusos das rodas.


Editoria MÍDIA@MAIS

9 Qui, 18 de fevereiro de 2010 16:54
Alexandre

Corriam os idos de 1988 ou 1989 e eu cursava a faculdade de Administração quando se começou a falar de privatizar a então Açominas, hoje Gerdau. Levei a pergunta da sala de aula a meu pai, que então trabalhava naquela empresa havia mais de 10 anos. E então, perguntei eu, bom ou mal negócio, bom ou mal preço de venda? Ele me respondeu sem rodeios: "rapaz, estamos atrasados em 5 anos nas metas, e aquilo é um poço sem fundo de dinheiro público, uma vergonha de má-versação. se quiserem privatizar de graça, já é um bom negócio".

8 Qui, 18 de fevereiro de 2010 16:19
Antonio Carlos

Na época em que o Ministério das Comunicações pertencia ao dr. A.C. Magalhães, a obtenção de telefone estava também sujeita a escrutínio de natureza moral. Quem precisasse duma segunda linha tinha de justificar-se junto às autoridades. Se fosse necessidade, tudo bem; mas se fosse "luxo", não! O "não" não significava "não", mas apenas que o candidato teria de arranjar algum jeitinho - algo como registrar o aparelho em nome de terceiro. Nessa época aconteceu algo engraçado. Numa reunião em casa dum amigo, alguém, no meio da conversa, apontou o aparelho sobre a mesa e falou: "Esse telefone, por exemplo, vale cinco mil dólares!" Mal repararam que a empregada ouvia tudo com a maior atenção. Resultado: no dia seguinte, ela e o aparelho haviam sumido para sempre.

7 Qui, 18 de fevereiro de 2010 13:57
zecapere

Lúcido este artigo. Também sofri na carne a amargura da humilhação para conseguir um telefone comercial. Só foi instalado (CRT-RS) depois de ter contatado a diretoria na capital, que ordenou fosse priorizado fone comercial. O Município, o Estado e a União são péssimos gerentes. Deve o Sr. Gaspari escrever sobre a importação de petróleo da falida Venezuela... Será que vai??? Privatização é para quem tem competência e dinheiro na Caixa e que pode dispensar do seu quadro as quadrilhas de incompetentes. Vejam as estradas, que vergonha! Estamos no século XXI e gente falando em Estatizar empresas! Filas de moribundos nas portas dos hospitais mendigando uma consulta, e ainda com mau atendimento.

6 Qui, 18 de fevereiro de 2010 13:06
Van Gomes

É um grande erro achar que a função do estado é prover educação, saude e outros pinduricalhos, exceto a segurança. Quem pensa assim já está contaminado com a doutrina do socialismo e não tem que se queixar do Gaspari. A função do estado é UNICAMENTE garantir a segurança dos individuos e o livre funcionamento do mercado. Quem acha que o estado tem que prover mais que segurança acredita na história de que só vai entrar a cabecinha. Depois não deve se queixar.

5 Sáb, 06 de fevereiro de 2010 21:12
F.Carlos

As empresas públicas devem ser vendidas, aquelas que não encontrarem compradores devem ser doadas. Botar fora as nossas "petrossauros".

4 Sex, 05 de fevereiro de 2010 14:52
Paulo

Lembro quando há 15 ou 20 anos algumas pessoas costumavam vender imóveis ou carros e utilizavam o dinheiro na compra de linhas telefônicas, que eram alugadas pelo valor de um salário mínimo mensal. Já que estamos num país sem passado, onde todo dia a história começa, dai um dos motivos pelos quais escroques conseguiram assumir o controle estatal e seus lacaios escrevem mentiras livremente nos jornais, seria de bom tom preservar informações como essa, que demonstram o quanto o Estado é ineficiente.

3 Sex, 05 de fevereiro de 2010 13:44
Antonio R Batista

Prezado Sr Hof, Também posso contar minha historinha. Mudei para Campinas há 20 anos e a primeira coisa que comprei foi um telefone por 3000 dólares. Morei em casa alugada até terminar a construção da minha a poucos quarteirões de onde estava. Morava próximo à Unicamp, uma das mais importantes universidades do país. Mas quando minha casa ficou pronta descobri que não havia como instalar o telefone nela, por falta de cabo. Demorou mais de um ano para conseguir transferí-lo; não havia celular na época e eu ia, diariamente, até a casa de um ex-vizinho checar as mensagens na minha secretária eletrônica. Que saudade da telefonia estatal!!! Agora é um horror. Vivem querendo me vender mais telefones e eu só tenho duas orelhas.

2 Sex, 05 de fevereiro de 2010 09:04
MARCO

Não me surpreende que esse infeliz escreva num jornal da Globo, organização essa que prima por se comportar como uma porta-voz do Sr. Lula e seu governo infame..

1 Sex, 05 de fevereiro de 2010 08:07
Rodrigo

Só não concordo com as privatizações das estradas, que foram construídas com dinheiro público, dinheiro dos impostos que pagamos, e quando precisamos viajar temos que pagar pedágio para andar 50km. Somos obrigados a pagar impostos, trabalhamos 4 meses do ano só para pagar impostos, é obrigação de qualquer cidadão pagar impostos. Qual é a obrigação do estado? Como você disse: "a função do estado é prover saúde, educação básica e segurança." Por que somos obrigados a cumprir nossa parte e o estado não?

Adicionar comentário

Seu apelido/nome:
Comentário:
  Palavras para verificação. Apenas palavras em caixa baixa sem espaços.
Verificação de palavras:

Clique para ver a lista de artigos deste autor

NEWSLETTER



Clipping@Mais

Cidadão de categoria especial

Chamando atenção para o assassinato de homossexuais cometidos durante o ano passado em todo o Brasil, matéria da Agência Estado vai ao encontro daquela que parece ser a pretensão de muitos militantes homossexuais: ser um cidadão acima dos demais.

Leia mais...
 

Recado aos cubanos: nem que a vaca tussa

Ministra Dilma dá recado aos cubanos: criticar Lula, nem que a vaca tussa. Criticar Fidel? Nem que o céu desabe... 

Leia mais...
 

Demonstrando o óbvio, mais uma vez – 2

Para o presidente Lula, os dissidentes cubanos detidos pelo regime totalitário de Fidel Castro são iguais aos bandidos presos nas cadeias brasileiras.

Leia mais...
 

O partido da bandidagem

É o título do editorial do Estado De S.Paulo desta terça, 9/03.

Leia mais...
 

Lá vamos nós de novo...

Basta surgir ano eleitoral no horizonte e começam as greves políticas em São Paulo.

Leia mais...
 

Genocídio: Reconhecimento tardio ou pressão política também atrasada? 
 
Na quinta-feira, 03/03/2010, um comitê da Câmara dos Deputados dos EUA aprovou uma resolução declarando que o massacre de armênios por turcos otomanos  à época da I Guerra Mundial (1915)  foi um genocídio.

Leia mais...
 

Humor

Análise

Editor Chefe: Roberto Ferraracio
Redação: Paulo Zamboni e Gerson Faria