Estive recentemente em Florianópolis visitando minha filha, que lá reside com o marido. Para quem, como eu, mora no Rio de Janeiro, uma curta estadia na bela ilha catarinense é suficiente para sentir enormes diferenças. A mais acentuada talvez seja a diferença de tratamento entre as pessoas. Nota-se no sul do país uma cortesia que falta nas demais regiões, mas especialmente no Rio. Isso fica patente, por exemplo, no trânsito. Enquanto no Rio o trânsito se transformou numa guerra, em Floripa os motoristas dão passagem, respeitam a preferência, aguardam as manobras dos demais, pouco buzinam. Com isso, os níveis de estresse são muito menores.
Todo ajuste econômico é estruturado em torno de acordos de vontade entre agentes que visam a adquirir, resguardar, transferir ou conservar direitos de propriedade. Os contratos podem ser expressos ou tácitos, porém a expectativa subjacente é o cumprimento do pactuado, já que, caso contrário, a contratação não teria nenhum sentido. Com efeito, em sociedades onde a confiança não é regra, as relações entre indivíduos perdem um dos seus mais importantes princípios subjetivos de referência, as interações de natureza econômica tornam-se complicadas e caras, desaguando finalmente num meio ambiente inóspito à geração de riquezas e ao desenvolvimento.
De acordo com o economista americano Peter Boetke, dependendo do ambiente em volta, o ser humano pode ser levado a dois tipos de comportamento econômico distintos. Ou ele se voltará para o roubo, a pilhagem, o saque, ou ele partirá para a produção e as trocas em geral. A propensão dominante dependerá basicamente das regras do jogo e da sua correta aplicação. A riqueza ocorre naquelas sociedades que promovem a produção e o comércio, enquanto a pobreza se instalará onde o ambiente seja propício ao roubo e à pilhagem.
Os bons economistas são quase unânimes em afirmar que instituições fortes, inequívocas e estáveis formam o arcabouço fundamental e necessário para a prosperidade econômica de qualquer sociedade. De acordo com Douglass North, "O desempenho econômico é função das instituições e de sua evolução. Juntamente com a tecnologia empregada, elas determinam os custos de transação e produção. As instituições constituem as regras do jogo numa sociedade; mais formalmente, representam os limites estabelecidos pelo homem para disciplinar as interações humanas. Um mercado eficiente é consequência de instituições que, em determinado momento, oferecem avaliação e execução contratuais de baixo custo".
Além de onerar as transações comerciais com um altíssimo custo indireto, também chamado pelos economistas de "custo de transação", o clima de desconfiança geral provoca ainda a perda de inúmeras oportunidades de negócios e investimentos que, de outra forma, poderiam estar sendo entabulados. A disseminação da confiança explica, portanto, boa parte da diferença entre os países ricos e os países pobres. Quanto mais ampla for a confiança entre os cidadãos, mais comuns serão os negócios.









Caro João Luiz Mauad: Parabéns pela lucidez e simplicidade na exposição da linha de raciocínio. Sou jornalista, vivo em São Paulo e faço parte de uma associação de empresários e profissionais liberais preocupados com o resgate da ética nas relações socicomerciais.
Trata-se da Associação Brasileira do Empresário Cristão - ABEC. Como comungamos os mesmos valores expressos em sua narrativa, gostaria de lhe pedir permissão para publicar o texto - com o devido crédito, no site www.empresariocristao.org.br .
Agradeço desde já sua atenção,
Cordial abraço,
Prezado Marcelo
Gratos pelo seu gentil contato.
O sr. está autorizado a reproduzir os textos do sr. Mauad publicados pelo MÍDIA@MAIS, bastando apenas citar a fonte.
Convidamos o amigo a continua prestigiando o MÍDIA@MAIS
Atenciosamente,
Editoria MÍDIA@MAIS
Caro F. Carlos, Agradeço suas palavras de incentivo, mas preciso informar que não sou professor de nada, apenas um curioso disposto a compartilhar aquilo que aprendeu. Abrs Mauad
Belo artigo do professor Mauad. Tenho um amigo que trabalhou na carteira de exportação do BB, relatou-me que exportar para países da África era bastante dificultoso, sendo a transação feita à vista, pois até os contêineres eram furtados.
Sou formada em Direito e advoguei por cinco anos. É ilusão achar que os contratos celebrados diariamente respeitem leis e o princípio da boa fé objetiva. Os contratos há muito tempo são de adesão. Nos séculos XVIII e XIX ainda era possível existir discussão e negociação entre as partes. A partir do século XX o consumidor não tem mais como discutir as cláusulas com as empresas, ele simplesmente assina. Portanto é radicalismo demais achar que nem mesmo o Poder Judiciário possa revisar contratos, pois é comum encontrar cláusulas contratuais que ferem as leis civis, penais e de defesa do consumidor e a jurisprudência pacífica do STJ e do STF. O senhor, antes de ser empresário, é consumidor e contribuinte também!
Prezada,
Cláusulas que ferem leis civis ou penais são cláusulas nulas e cabe ao judiciário decretar a sua nulidade. Caso não firam qualquer lei, são válidas e não cabe ao judiciário "revisar" contratos legalmente firmados. Um país onde não existe segurança jurídica; onde os contratos são reféns dos humores (e ideologias) dos juízes, é um país fadado ao fracasso. Ademais, saiba que a falta de segurança jurídica costuma beneficiar mais os que têm maior poder econômico - os grandes empresários e o governo.
J.L.Maud
É importante que bancos e outras instituições financeiras respeitem o Código de Defesa do Consumidor, pois o desrespeito dos bancos às leis contribui para a inadimplência. Empresas e Administração Pública devem respeitar as leis, pois a revisão dos contratos não traz insegurança jurídica, é o remédio necessário para o mal da desobediência às normas e à jurisprudência. Consumidores e cidadãos sempre se beneficiam quando cláusulas contratuais ilegais são revisadas pelo Poder Judiciário. É um erro terrível pensar que contratos devam ser intocáveis, pois vivemos numa sociedade que não respeita leis, normas, regras e decisões judiciais.
mauad