Tal como prometido, Obama estabeleceu um novo caminho para a diplomacia americana. Após dez meses de diplomacia “foi culpa do Bush”, a administração Obama precisa apertar o botão de “reset”. De novo.
América Latina
Depois da ruidosa tentativa de aproximação com Castro, Chávez, Morales, Ortega e Zelaya, a América Latina poderia pensar que viramos a casaca. Imaginem! Os Estados Unidos agora estão dando apoio a líderes socialistas não-democráticos que promovem a agitação por mudanças sociais e econômicas.
Mas essa “meia volta, volver!” significa apenas mais confusão, e não menos, na medida em que a Venezuela de Chávez pondera os prós e contras de uma disputa de fronteira com a Colômbia e os líderes no Equador e Peru vêem as vantagens tangíveis de anular a oposição, tal como o fez Chávez.
Em outras palavras, voltaremos à polarização dos anos 1960 e 1970, quando as tomadas de poder dos comunistas provocavam a reação de caudilhos de direita, agora que os Estados Unidos retiraram seu costumeiro apoio moral aos reformadores democráticos e pró-livre-mercado, e se ladearam a praticantes do mesmo tipo de esforços estatizantes e de muito maior taxação sobre os “ricos” que estão começando a ser implantados aqui nos EUA.
Uma diplomacia mais humana e mais gentil
Mas então, nosso presidente e seus diplomatas estão apresentando uma faceta mais humana e mais gentil da diplomacia americana? Realmente, não. Moralistas messiânicos metidos a santo — seja um Woodrow Wilson, um Jimmy Carter ou um Barack Obama — raramente toleram os simples mortais.
Hillary ganhou a antipatia dos paquistaneses aos lhes passar sermões sobre quase tudo, de como capturar Osama Bin Laden a como taxar o seu próprio povo. Richard Holbrooke intimidou o governo de Karzai sem nenhum proveito. George Mitchell fez muito pouca coisa além de convencer os israelenses de que os Estados Unidos não são mais seus aliados e de que ele, George Mitchell, é o czar o Oriente Médio.
A suposta guerra “má” no Iraque está essencialmente ganha e o país, calmo; a muito apregoada guerra “boa” no Afeganistão está esquentando, com um plano de batalha que é uma solução de compromisso mais focada em estratégias de retirada do que numa vitória.
O Islã radical espera avidamente por um julgamento espetacular em Nova York, no qual os seus heróis, assassinos em massa confessos, contarão ao mundo por que os Estados Unidos tiveram o que mereciam em 11 de Setembro. Enquanto isso e por dois anos de campanha presidencia [*], os terroristas ouviram do candidato Obama que os tribunais americanos, capturas de suspeitos de terrorismo no exterior, escutas telefônicas, interceptação de mensagens, ataques de aviões não-tripulados e Guantânamo eram ilegais e injustos para com eles, mas continuam valendo sob a presidência de Obama. E que mensagem, não? “Vocês, islamistas, estavam certos quando diziam que rasgamos nossa Constituição quando fomos atrás de vocês, mas, de qualquer maneira, continuaremos a rasgá-la!”.
Bom para vocês, mas não para nós
A imagem a ser projetada no exterior supostamente deveria ser a de uma nova, hope-and-change deferência ao multilateralismo. Em vez disso, o que há é uma América chorona, auto-indulgente e tagarela, tão atrapalhada e inconsistente em seus sermões quanto é consistentemente metida a santarrão no tom.
Queremos proteger nossas novas indústrias estatizadas — a expensas dos outros. Queremos que o capital disponível no mundo financie ainda mais benefícios governamentais para nossos cidadãos, já comparativamente prósperos. Queremos que o resto do mundo perfure em busca de petróleo e gás natural em tipos de áreas que estão fora de questão aqui nos Estados Unidos. Queremos pedir desculpas pela velha América, mas em troca, esperamos que o mundo dê ouvidos aos nossos novos sermões. Queremos que vocês busquem a democracia, mas não nos peçam nem sequer uma palavra de apoio quando os brutamontes em seu meio quiserem sufocá-la.
Velhos amigos dos Estados Unidos, da Colômbia a Israel, estão recebendo a mensagem de que fizeram algo errado ao auxiliar a América pré-Obama; enquanto isso, velhos inimigos, tais como Ahmadinejad e Chávez, observam em triunfo, agora que os Estados Unidos finalmente compreendem por que eles foram tão hostis em suas pesadas críticas anteriores.
O reitor Obama
Ronald Reagan disse ao mundo que estaria ao lado da liberdade contra a agressão e a autocracia comunista. George Bush (pai) disse ao mundo que as suas fronteiras permaneceriam sacrossantas e que um país não poderia engolir outro. Bill Clinton finalmente mostrou que um ditador genocida não poderia continuar suas ações no coração da Europa e ficar impune. George Bush (filho) eliminou dois dos piores regimes terroristas do planeta, o Talibã e o de Saddam Hussein, substituindo-os por sistemas constitucionais, enquanto mantinha o território americano livre de um outro 11 de Setembro.
Barack Obama está dizendo ao mundo que tudo isso acima é complexo demais — e característico de uma América que não estava ouvindo, mas ditando ordens.
Em vez disso, como qualquer bom reitor universitário, Obama está agora dirigindo um seminário do corpo docente, mas em escala global. Ouvimos as reclamações de todo mundo, fazemos um esboço dos prós e contras, oferecemos sugestões polidas e objetivas a todas as partes e recomendamos sábias soluções meio a meio, que podem ser ratificadas pela recém revitalizada ONU — e tudo para ser resumido numa ou duas profundas reverências e num altivo discurso elogiando nossa própria sabedoria e sucesso.
Espero que alguns velhos sábios estejam sussurrando aos ouvidos dos obamianos para que estes apertem o botão de “reset”, de novo. Sabe, é duvidoso que o mundo aguente mais três anos dessa conversa.
©2009 Victor Davis Hanson
Tradução: Henrique Dmyterko
Publicado originalmente no National Review Online em 05/12/2009.
Também disponível no site do autor.
[*] NT: Desde que foi eleito senador em 2006, Barack Obama tratou de fazer apenas uma única coisa: campanha pela presidência, abstendo-se de votar ou estando ausente de todas as votações do senado nesse período.
Leia também
Apertando o botão de “reset”. De novo - Parte I
Serão os Estados Unidos amanhã a Europa hoje?