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Sowell e os Republicanos – Parte I

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Oleitor do Mídia@Mais tem tido o privilégio de contar com as análises de Thomas Sowell sobre a política, economia e cultura do país mais poderoso do mundo. Num estilo que alia a clareza a uma virtuosa economia de palavras, Sowell é um verdadeiro mestre: explica, critica, desmistifica e instrui. Seus artigos e livros são de uma franqueza e objetividade desconcertantes. Seu penúltimo livro, publicado em 2009, The Housing Boom and Bust, não deixa pedra sobre pedra quanto aos responsáveis pela crise financeira mundial decorrente da implosão da bolha de crédito imobiliário nos Estados Unidos.
 
Sowell apresenta os fatos que apontam os culpados: governos, burocratas, políticos (Democratas e Republicanos), bancos, corretoras de títulos, ONGS ambientalistas, mas também os tomadores de empréstimos - os mutuários-, como dizemos aqui no Brasil. Ninguém escapa, pois todos contribuíram com variadas doses de insensatez, arrogância, interesses financeiros e políticos imediatistas, ou até escusos, e também altas doses da mais pura e simples estupidez. Toda essa irracionalidade exuberante, para usar expressão cunhada por um ex-presidente do Federal Reserve, parece começar em 1993, com Bill Clinton e sua equipe de “aloprados”, que forçaram os bancos a rebaixar radicalmente os padrões de concessão de crédito, com o nobre propósito de oferecer “moradia justa” ao povo. Havia problemas de supervalorização de imóveis em algumas áreas do país – bastante restritas, aliás -, especialmente na região costeira da Califórnia, um problema local gerado por novas e absurdas leis de zoneamento urbano, algumas delas paridas por pressão de grupos ambientalistas defensores da idéia do “open space”, isto é, espaço aberto para as suas mansões à beira-mar ou nas colinas e que geraram uma enorme e artificial pressão sobre os preços de áreas edificáveis.
 
O problema dessa supervalorização – mas não o da sua causa - logo chamou a atenção dos políticos em Washington, e problemas são realmente  a sua especialidade: logo transformaram problemas  localizados numa “causa” nacional. Numa analogia imperfeita, imagine uma nova e absurdamente restritiva lei de zoneamento para a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, transformada em assunto de debate e em legislação federal pela zelosa ação de senadores e deputados de Roraima ao Rio Grande do Sul. Tudo em nome da “moradia justa para todos”, é claro. Seguindo esse raciocínio analógico, o feliz povo de Quixeramobim, no Ceará, seria “ajudado” a superar um problema que ainda não tinha, em mais um exemplo de socialização ampla, geral e irrestrita.
 
Mas se os bancos e cooperativas de crédito imobiliário dos EUA chiaram de início, foram compensados pela liberalização das regras de abertura de novas agências em outros estados [1], autorização de fusão e aquisição de outros bancos. Essas instituições financeiras também logo encontraram meios muito criativos de transferir e diluir os riscos através da emissão de títulos negociáveis, lastreados nessa imensa e crescente dívida; títulos que foram comprados por outros bancos, por fundos de investimento e por indivíduos quase que no mundo todo. Diante de uma aparentemente infindável expansão do mercado, muitos dos tomadores de empréstimos imobiliários (as hipotecas, ou mortgages) passaram a agir como investidores imobiliários amadores, comprando imóveis financiados com a certeza de que os venderiam com bom lucro, investindo o resultado em outras hipotecas, ainda maiores. Importante também foi o fator ignorância, pois muitos mutuários literalmente não sabiam o que estava nos contratos que assinavam; p.ex.: com o crédito artificialmente fácil (a ciranda financeira provia os recursos captados no mundo todo), muitos contratos não exigiam nem sequer um dólar de entrada, ofereciam carência de dois ou três anos até o início do pagamento do principal da dívida assumida, destinando esses primeiros anos ao pagamento parcelado somente dos juros, criando uma ilusão de facilidade e conforto. Sowell vê essa imprevidência como resultado de um longo processo de dumbing down, de estupidificação da sociedade americana. De fato, esse problema talvez seja a maior preocupação do autor.
 
O auge dessa expansão se deu em 2005, quando Sowell e alguns outros economistas já estavam cansados de alertar sobre o fim da linha, ou ainda, sobre o inevitável estouro da bolha imobiliária. Em 2006, o Presidente Bush (Republicano), até tentou reverter essa situação, mas quando já não mais dispunha de maioria no Congresso; de fato, Bush perdeu muito tempo tentando agradar aos Democratas, mesmo quando ainda tinha a maioria. A crise finalmente se instalou em 2008, e essa, em grande medida facilitou a ascensão e a vitória de Obama, com a indefectível promessa de “esperança e mudança”, traduzida em mais e mais intervenção estatal na economia, temperada com muito discurso grandiloquente.
 
Passado um ano de governo Obama, veio o desencanto. Se nem só de pão vive o homem, muito menos só de discurso. Sua popularidade e a dos Democratas caíram vertiginosamente. Nova Jersey e Virgínia, estados que deram ampla margem a Obama em 2008, elegeram governadores Republicanos em 2009. Analistas mais apressados começaram a prognosticar: “Agora é a vez dos Republicanos...”, como se isso fosse uma inevitabilidade, que Sowell, em tom mordaz, compara à crença de torcedores que viram seu time perder dois pênaltis consecutivos e diante da marcação do terceiro, estão convencidos de que “agora vai!”.
 
Porém, um fato importante é pouco lembrado: de 1994 a 2006, os Republicanos tiveram maioria na Câmara e no Senado; durante doze anos, seis no período Clinton, seis no período Bush, desfrutaram de ampla maioria, mas  praticamente nada fizeram para alterar ou reverter aquilo que já se anunciava como um desastre. Jogaram mal, perderam gols e se acomodaram na retranca, anestesiados pela fantasia generalizada de vitalidade econômica via expansão de consumo com base em crédito perigosa e artificialmente fácil. Enquanto é verdade que vários setores da economia cresciam de forma sólida e saudável, o câncer da bolha avançava sobre os setores saudáveis. Some-se a isso a guerra no Iraque, inicialmente apoiada até mesmo pelos próceres Democratas e inegavelmente  um êxito no campo estritamente militar,mas que logo se transformou em munição pesada e muito habilmente usada pelos Democratas contra Bush e seus “companheiros” de partido, que perderam a guerra na mídia. O que pode explicar tanta inércia, inépcia, amadorismo, omissão ou conivência do GOP [2]?
 
No mesmo dia em que o Republicano Scott Brown surpreendeu a todos ao ser eleito senador por Massachusetts para a cadeira deixada vaga pela morte do ícone da esquerda Democrata, Ted Kennedy, Sowell publicava um artigo em quatro partes que questionava o prognóstico da inevitabilidade da reconquista Republicana. É aqui que a arguta análise de Thomas Sowell joga água na atual fervura do triunfalismo apressado dos  Republicanos, colocando pingos em muitos “is”, e de lambuja, oferece valiosos insights de tática eleitoral e estratégia política geral; valiosos porque são calcados no bom senso e na observação atenta. E é aqui também que a sua análise seria muito útil aos apatetados políticos brasileiros que ainda não sabem (ou não querem) sair da armadilha do discurso hegemônico criado pela esquerda.
 
Antes de apresentar um breve resumo dessa análise e dos insights, aproveito para informar aos novos leitores e relembrar aos que já acompanham as colunas de Thomas Sowell sobre algumas coisas a respeito dele e de suas idéias: ele não é Republicano; já tendo declarado que: “A única razão [ou desculpa] para votar nos Republicanos são os Democratas”; ele é um crítico contundente do big government, ou, em outras palavras, é contrário à intervenção estatal na economia e na educação; é um crítico da administração Obama exatamente por isto e não por algum maniqueísmo que apresentaria a falsa equação da luta entre “mocinhos Republicanos” versus “bandidos Democratas”; ele é negro, mas se recusa a ser tratado como “afroamericano”, pois lhe basta ser um americano, na melhor expressão de igualdade diante da lei e das oportunidades que teve na vida.
 
Eis a primeira parte do resumo comentado da análise de Sowell, que em alguns pontos pode parecer óbvia, mas é justamente essa obviedade que tem sido ignorada, com consequências desastrosas:

- As pesquisas de opinião mostram que os eleitores estão ficando mais e mais cheios da administração Obama e da atuação do Congresso dominado pelos Democratas. Mas, quando chegar o dia das eleições [as mid term elections], quem votará não serão as pesquisas. Ainda é necessária a existência de um candidato que derrote seu oponente, e, portanto, a questão é se os Republicanos terão candidatos capazes de vencer. A responsabilidade dos Republicanos é ainda maior nessas eleições, uma vez que as políticas adotadas pela atual administração são, não apenas deficientes, mas perigosas, tanto domesticamente como no exterior. Um presidente que literalmente se curva diante de inimigos e de aliados incertos merece a confiança do povo americano?

- Apesar do consenso de que não há muita diferença entre Democratas e Republicanos quando estão no poder, restam diferenças que os Republicanos não têm sabido aproveitar.  De fato, quando no poder os Republicanos agiram de maneira muito similar aos Democratas, autorizando gastos sempre crescentes, além das escandalosas dotações orçamentárias com fins eleitoreiros; o inverso não ocorre, isto é, os Democratas têm sido aquilo que são e há mais de 70 anos: defensores do big government, com tendência de acirramento.

- Uma das diferenças notáveis entre Republicanos e Democratas é que estes últimos são mais articulados. É verdade que é muito mais fácil vender a idéia do estado-babá, especialmente em períodos de crise. Mas se os Republicanos não fizerem as perguntas inconvenientes e nem se derem ao trabalho de explicar por que é errado esse assistencialismo governamental à la Papai Noel, então os Democratas podem começar a comemorar. De nada adianta ter um produto melhor se a sua equipe de vendedores não sabe ou não quer vendê-lo.

- Os Republicanos também falham na percepção de longo prazo quanto à importância da composição da burocracia federal. Quando os Democratas carregam a burocracia federal com esquerdistas [“liberals”, nos EUA], esses permanecem nos cargos durante as administrações Republicanas, e em muitos casos podem moldar a percepção da realidade que chega à mídia e ao público; são eles que produzem e apresentam os dados, contratam consultores e coordenam a distribuição de verbas.  Dados sobre as diferenças de renda, por exemplo, são apresentados de uma maneira que sugere que as diferentes faixas de renda da população são imutáveis, ou ainda, que quem está numa faixa, lá fica por toda a vida, quando na verdade, outros estudos indicam que a vasta maioria das pessoas na faixa de mais baixa renda saem desta ao longo do tempo. Mais pessoas entre os 20% mais pobres acabam entre os 20% mais ricos do que aqueles que permanecem na faixa de menor renda. Ao escolher quais dados e como estes são apresentados, o Census Bureau [o IBGE americano] tornou-se, na prática, um órgão do Establishment da esquerda Democrata, mesmo quando Republicanos conservadores estão no controle do governo federal. Isso não é, necessariamente, sabotagem política deliberada, mas simplesmente esquerdistas pensando e agindo como esquerdistas. Durante anos, Robert Hector, da Heritage Foundation,  vem demonstrando as falácias inferidas dos dados divulgados pelo Census Bureau. E ainda assim, quando os Republicanos controlaram o executivo federal por doze anos consecutivos, nem sequer tentaram indicar alguém como Rector para uma posição onde pudesse dar um fim à tendenciosidade das estatísticas que promovem conceitos errados e graves consequências políticas. Parece incrível, mas esse detalhe de “dormir com o inimigo” nunca foi observado pelos Republicanos. E o problema está sempre nos “detalhes”.

Amanhã, leia o restante da análise de Thomas Sowell sobre o desconhecimento do histórico do partido Republicano pelos seus próprios membros, o voto dos negros e como sair da armadilha do discurso esquerdista [“liberal”] dominante, sindicalismo, aborto e muito mais.
 

[1] Nos Estados Unidos, e até então, os grandes bancos eram grandes pelos enormes ativos e se concentravam nas grandes cidades, especialmente em Nova York, Boston, Chicago e São Francisco, sem autorização de abertura de agências em outros estados, onde uma miríade de bancos pequenos (um, às vezes dois por cidade) eram a regra.
 
[2] GOP – Grand Old Party é o apelido tradicional do Partido Republicano, que comparativamente, nem é tão “old”: foi fundado em 1854, muito depois do Partido Democrata, que à época era dominado por políticos de Nova York (Tammany Hall) e pelos escravocratas do Sul dos EUA; e isso desde 1789. O Partido Republicano era então o partido da “mudança” e abrigava também os abolicionistas do Norte dos EUA.




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Comentários (3)
3 Qui, 18 de fevereiro de 2010 10:01
Pernambucano

As palavras de Sowell são como um sopro de ar refrescante, numa imprensa que em geral só publica os pensamentos opressores da esquerda.

2 Qui, 11 de fevereiro de 2010 20:30
Cavaleiro do Templo

Concordo com tudo dito pelo Paulo. Parabéns a todos (do site e ao Paulo)!

1 Ter, 09 de fevereiro de 2010 14:08
Paulo

É um desses absurdos inexplicáveis - e tão comuns  - da imprensa brasileira o fato de um comentarista do nível do sr. Sowell não ter seus artigos reproduzidos pela grande mídia nacional. Ainda bem que pelo menos o Mídia@Mais oferece este material de alta qualidade ao público.

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