Aquela porcaria de Guantânamo!
Obama deu uma quase incrível coletiva de imprensa, durante a qual analisou os lapsos da segurança. Quando evocou Guantânamo, de uma só vez o presidente: (a) prometeu fechá-la; (b) prometeu não enviar mais detentos de volta para o Iêmen; e (c) alegou que a base era uma ferramenta de recrutamento para a Al Qaeda (em outras palavras, aparentemente o Gulag de Bush incitou pessoas como Umar Farouk Abdul Mutallab a tentar um atentado a bomba numa companhia aérea), sempre usando a expressão enfática “Não tenham dúvidas sobre isso”.
Isso é praticamente insano.
Sr. Presidente, considere:
1) Pare de choramingar sobre fechar Guantânamo, e feche essa porcaria. A base tem ou não tem utilidade. O povo americano está ficando cansado desse tipo de chororô “Bush me obrigou a mantê-la aberta mesmo sendo contraproducente”. Se Guantânamo é uma ferramenta para recrutamento para a Al Qaeda, então interrompa de qualquer maneira o uso dessa ferramenta de recrutamento. Em vez disso, temos a impressão de que essas pessoas, incrivelmente sem direção, descobriram que Guantânamo é ao mesmo tempo útil e, no entanto, um risco político entre seus partidários mais fervorosos, portanto, eles pretendem manter sua utilidade ao mesmo tempo em que culpam Bush pela impopularidade dessa prisão.
2) Se não vai mais mandar “supostos” terroristas de volta ao Iêmen, então simplesmente comece a julgá-los nas cortes civis de que tanto gosta. Por que mantê-los por mais tempo no Gulag?
3) Vamos tirar isso a limpo: durante uma década, nos anos 90, uma ascendente Al Qaeda cometeu diversos ataques contra os Estados Unidos e seus interesses. Tudo isso culminou no ataque em 11 de Setembro. Em resposta a esse assassinato em massa, e como parte dos esforços para perseguir a Al Qaeda e o Talibã no Afeganistão, Bush abriu a prisão na Baía de Guantânamo – após tal iniciativa não presenciamos nenhum ataque em maior escala no solo dos Estados Unidos comparável ao de 11 de Setembro.
Então considere a lógica: antes de Guantânamo, a Al Qaeda atingiu seu maior sucesso em prejudicar a América; após sua criação, a organização terrorista sofreu suas mais dolorosas derrotas, mas de alguma maneira a existência da base é contraproducente e uma ferramenta de recrutamento? Qual, por Deus, era a ferramenta de recrutamento em 10 de setembro de 2001?
Levando tudo em consideração, a idéia de que um terrorista passará muito tempo numa cela em Cuba se for pego parece muito menos uma ferramenta de recrutamento do que escutar que seu inimigo [a América de Obama] baniu o uso da expressão “guerra contra o terror”, inventou grandes realizações da sua civilização, se desculpou pelos pecados do país dele, se curvou publicamente a um proeminente autocrata muçulmano, prometeu um julgamento público em Nova York para o seu heróico planejador dos ataques de 11 de Setembro, e em geral, jogou a culpa da guerra no seu antecessor. Para alguém inclinado a se tornar membro da Al Qaeda, tudo isso se parece muito mais com um grande encorajamento se comparado à mera possibilidade de punição via encarceramento, se pego.
4) Será que Obama tem alguma noção daquilo que inimigos dizem e fazem durante uma guerra? Que a Al Qaeda diga, esta semana, que Guantânamo é uma ferramenta de recrutamento, dificilmente a torna uma. Durante anos escutamos que tropas americanas na Arábia Saudita causaram a raiva e o ressentimento de Bin Laden – e agora que elas se foram? Se alguém agrupasse todas as reclamações, em constante mutação, do Dr. Zawahiri – judeus supostamente em Meca, falta de uma reforma nos regulamentos de financiamento das campanhas eleitorais americanas, Israel, etc. – a lista seria infinita. Tucídides inventou uma palavra, prophasis, precisamente para dar a idéia de beligerantes criando um complexo de perseguição para justificar suas agressões. Obama realmente acreditaria nas lamúrias de Hitler sobre Versalhes quando ele invadiu a Renânia [1], Áustria, Tchecoslováquia, Polônia, França, Países Baixos, Iugoslávia, Grécia, Rússia, etc.? Em qual momento Obama, nosso Clement Attlee e Stanley Baldwin dos dias de hoje, iria desistir de tentar fazer Versalhes “funcionar”, e em vez disso, ponderaria que Hitler era um brutamonte agressivo que encobria suas incessantes invasões com todos os tipos de lamentações que foram desenvolvidas para apelar aos sentimentos de culpa ocidentais?
De volta à parte II da tragédia grega de Obama
Todo moralista autodestrutivo, tal como nos ensinam as tragédias gregas, é obcecado com o seu “próprio eu”. Em nossa época, lembre-se da penetrante fúria de Woodrow Wilson com os meros mortais que tinham receios quanto à sua Liga das Nações, relembre a raiva de FDR com a escolha dos juízes de uma Suprema Corte menos que simpática a ele, ou lembre-se dos choramingos de Jimmy Carter sobre a “crise de confiança” no verão de 1979. Tal é a revolta de todos os moralistas exaltados quando nós, pobres coitados, falhamos em apreciar os semideuses na Casa Branca que se dignaram a nos liderar.
Enfurecendo-se com os deuses
Bem, a segunda metade de uma tragédia não é bonita, tendo como referência o que Medeia faz a Jasão, Dionísio a Penteu, Édipo a si mesmo, Creonte a Antígona/ Creonte a si mesmo, e assim por diante.
Excesso de confiança não confirmada sempre resulta em castigo para si e leva a atê [2], ou destruição. No caso de Obama, estamos testemunhando tal situação. Seus discursos de “esperança e mudança” não estão mais livres de um vazio de conteúdo do que já estiveram antes. Mas agora, suas ênfases estudadas e sua fala ritmada inculcada pelo reverendo Wright estão desgastadas, as alusões já cansadas e é evidente que seus vinte e poucos escritores de discurso ficaram sem clichês desde março de 2009. “Foi o Bush quem fez!” continua uma desculpa, mas agora é monótona e soa como o conhecido choro de uma criança de três anos.
A emissora Rádio Pública Nacional (National Public Radio – NPR) e os blogs costumavam ridicularizar o “nuclar” (sic) de Bush, mas ao menos Bush fazia piada de seus tropeços linguísticos. Por outro lado, alguém pode acreditar que Obama nem sequer reconhece que 300 milhões de americanos se contorcem toda vez que ele diz, “Deixe-me ser completamente claro...” ou “Não tenham dúvidas disso” ou repita “Eu” ou “Para mim” ou “Meu time” pela trigésima vez em seus discursos?
Se Obama fizer mais uma conferência de imprensa referindo-se a si mesmo como um marco histórico não-tradicional e que é, não apenas um testamento de nosso progresso moral, mas também um lembrete de quão ruins nós éramos no passado, bem, chegamos ao ponto onde a maioria irá cochilar ou gargalhar.
No exterior, ninguém acredita na palavra de Obama: os iranianos riem de nossos prazos finais e os consideram tão concretos quanto os americanos consideram os prazos finais de Obama para a legislação de assistência saúde. Os europeus imaginam que ele os considera colonialistas, e estão a se perguntar o que fazer quando seu próprio e desmiolado público esquerdista estiver tão apaixonado por Obama quanto os líderes europeus mais sóbrios estão morrendo de medo dele. (O verdadeiro terror para diplomatas europeus é uma América mais à esquerda do que seu próprio esquerdismo de butique para-o-mundo-ver).
Putin age como se estivesse fatiando um peru americano num banquete festivo. A tentativa de aproximação com os bandidos – quer seja um Ahmadinejad, Castro ou Chávez – nos trouxe apenas o desprezo de todos os três. Os chineses estão dando os toques finais em uma nova política externa que traduza seu enorme superávit e nosso enorme déficit e crescimento de empréstimos em uma reorganização regional no Pacífico. (Eu não imagino que a Coréia do Sul ainda acredite que estaremos lá se a Coréia do Norte decidir ser ainda mais ousada e aumentar as apostas; os tailandeses estão se perguntando quando a próxima escalada virá; os japoneses aparentemente querem uma terceira via entre os Estados Unidos e a China, e por aí vai).
A percepção aparente é que a América de Obama ou não deseja ser a antiga aliada do passado ou não pode, dada a capitulação do Presidente ao voraz apetite americano por direitos e garantias mantidos com o dinheiro dos outros.
O que esperar então? Obama convocará uma reunião de cúpula de seus assessores de segurança, dado que seus sermões sobre antiterrorismo estão sem crédito; ele dará lições de moral sobre responsabilidade fiscal em breve, sendo que em seu mandato ele poderá igualar todas as dívidas somadas de todos os presidentes anteriores; ele falará sobre trabalhar em conjunto com os Republicanos, sendo que ele se tornou a figura mais polarizadora na recente história política – e muito poucos irão escutá-lo. O seu “Este é o momento” passou lá por 1º de março de 2009.
E mesmo assim...
Sempre aparece a sabedoria no fim de uma tragédia. O cego Édipo por fim pode “enxergar”. Penteu recebe uma visão final da realidade. Os excessos de Creonte lhe dão um discernimento tardio. Jasão finalmente tem a dimensão de Medeia, e de certa forma, de si próprio.
Nós nunca iremos ouvir isso deles, mas neste momento há centenas de analistas e agentes políticos Democratas concluindo que Obama estragou tudo: com índices de aprovação de 70%, com grande maioria no Congresso, com os conservadores desorganizados, tudo que ele precisava fazer era mostrar uma pitada de sanidade fiscal, fazer uma alteração esplendorosa e bipartidária no sistema de saúde, elogiar Bush pela capacidade de nos manter a salvo nos últimos sete anos, e no geral, parar de falar de si mesmo, de dar infinitas entrevistas, de se desculpar e de dar sermões. Se ele tivesse feito tudo isso, talvez ele tivesse tido tanto sucesso quanto Reagan e Clinton em neutralizar a oposição.
Mas na tragédia, o reconhecimento vem depois, e não antes da queda.
Em outras palavras, os Democratas estão começando a ficar atentos para o que Obama despertou – e muitos temem não só o fato de que Obama tem a capacidade de derrubá-los junto com ele, mas que, de fato, que ele não se importa muito com eles se isso acontecer.
Ah, por algum tempo Obama ainda pode pairar com 50% de aprovação, mas o problema é que ele gosta de todas as coisas que lhe trouxeram desfavor e detesta todas as coisas que poderiam restaurar sua eficácia.
Se no passado a retórica de “esperança e mudança” deslumbrou um reitor de universidade ou um filantropo, por que ele pararia agora, já que ele acredita que tanto o eleitorado quanto o mundo em geral são tão crédulos e seduzíveis pelo seu charme quanto as multidões organizadas de universidades e comunidades o foram no passado?
Resumindo, ele não pode mais parar, tanto quanto não o podia o onisciente Édipo.
[1] NT: Renânia é uma região ao norte da Alemanha situada em ambas as margens do rio Reno. O tratado de Versalhes – entre diversas outras sanções – desmilitarizou a região após as negociações ao final da Primeira Guerra Mundial.
[2] NT: Na mitologia grega significa a personificação da “ruína, tolice, desilusão”. Refere-se a ações de um herói que, devido a seu excesso de confiança, o levam a morte ou à sua derrocada.
©2010 Victor Davis Hanson
Tradução: Roberto Ferraracio