A entrevista de Fareed Zakaria com Lula para a Newsweek de 30 de março possui alguns pontos interessantes, em meio a várias perguntas sobre economia, perspectivas de crescimento e crise mundial. Zakaria erra no ponto em que os analistas social-democratas erram. Lula é o outrora “esquerdista radical que aceitou as regras do livre mercado”.
Zakaria não menciona o aparelhamento do Estado brasileiro, a compra de apoio político no congresso, a destruição do ensino público ocasionado pelas “classes progressistas”, as invasões de terra e a relativização do direito de propriedade, a destruição da segurança pela assombrosa ascensão da criminalidade devido às drogas. Mas ainda assim é corajoso, diferentemente de jornalistas brasileiros quando face a face com Lula.
Há dois pontos relativos à política que, embora merecessem pouco destaque na entrevista, seriam completamente impensáveis de serem tocados em uma entrevista para a imprensa brasileira:
Newsweek: Você é tido como um grande símbolo da democracia nas Américas. Mas há pessoas que afirmam que você tem se mantido em silêncio com a destruição da democracia na Venezuela por Hugo Chávez. Por que você não se pronuncia? Se o Brasil busca um papel maior no mundo, isso não faria parte, se posicionar com respeito a determinados valores?
Lula: Bem, talvez não concordemos com a democracia venezuelana, mas ninguém poderia afirmar que não há democracia na Venezuela. Ele [Chávez] está lá por cinco, seis eleições. Eu por apenas duas.
Newsweek: Ele possui gangues nas ruas. Isso não é democracia real.
Lula: Veja, temos que respeitar as culturas locais, as tradições políticas de cada país. Dado que eu tenho 84% de aprovação nas pesquisas de opinião, eu poderia propor uma emenda constitucional para um terceiro mandato. Eu não acredito nisso, mas Chávez quis permanecer no poder… Eu creio que a mudança de presidentes é importante para o fortalecimento da democracia.
Lula está mal acostumado, quando se depara com um jornalista "não-alinhado" se enrola todo, dá carteirada etc. Ele gosta mesmo é dos meninos do programa CQC. Ou será que os jornalistas brasileiros ainda não tiveram a oportunidade de fazer perguntas desse nível após 6 anos de mandato?
Lula afirma que gangues nas ruas e franco-atiradores matando pessoas para amedrontar a população fazem parte das “culturas locais” e da “tradição política de cada país”, entes que deveriam ser respeitados por princípio. Mas ele não negou o óbvio, a existência da milícia bolivariana, a polícia política do regime chavista.
Desse modo, despreza a crise venezuelana, defendendo a situação crítica de Chávez. Dando a ele suporte político, mostra ao mundo que o Brasil não possui as qualidades mínimas que fazem uma nação, sendo a defesa dos direitos humanos uma delas. Ao mesmo tempo, as “relações internacionais” do Brasil pleiteiam uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Bem, uma coisa já sabemos: em caso de qualquer conflito entre nações, daremos a resposta acaciana: “Veja, temos que respeitar as culturas locais, as tradições políticas de cada país”.
Sabemos que não foi bem assim que a esquerda cresceu no país, “respeitando as tradições políticas”. São terrivelmente antimilitares quando não estão no poder, como no Chile de Pinochet e no Brasil dos ’60. Com a Venezuela, Cuba e China não há o menor problema da militarização da sociedade, completa em alguns casos. O militarismo americano de Bush era o mal completo. Já Obama pode aumentar as tropas e chamar a população às armas; Obama é diferente.
Mas Lula pode tudo, certo? Lula não quer nem mais ter partido, partido é dor de cabeça. Lula é Lula, é um símbolo, e o abuso dos símbolos está na moda. Cobrar o que de um símbolo? Quando Lula junta os preconceitos de tipo físico e classe social, dando uma cara a todos os males, vê-se bizarrice, metáfora, oportunidade de ficar calado. Mas não se vê irresponsabilidade, “fala odiosa” (hate speech) e necessidade de retratação pública.
Quando Goebbels afirmava que os capitalistas eram a praga da Alemanha, viu-se aí a gasolina da luta de classes. Quando a doutrina do nacional-socialismo pregava incessantemente que a raça errada era motivo de todos os males de uma sociedade, viu-se a gasolina do genocídio. Mas Lula pode. Essas coisas não acontecem mais. E, tal como se faz com os idiotas, ninguém leva o presidente a sério.
O que causa espécie nesse movimento midiático internacional de louvores a Lula, é a facilidade com que jornalistas idiotizados mudam de posição, ora condenando, ora absolvendo pretensos líderes de nações hipócritas, como a nossa. Na Venezuela, desse energúmeno Chávez, o povo, bem ou mal, vai às ruas, monta barricadas, busca espaço em mídias alternativas (lembremos do Pasquim, nos idos de 60), se manifesta de uma maneira ou de outra. Aqui, esse apedeuta megalômano faz e desfaz justamente porque a mídia lhe dá esse poder.