Já recebi queixas de leitores dizendo que sou muito severo em minhas críticas a jornalistas; que errar é humano; etc, etc, etc. Eu não passo meus dias com uma lupa na mão procurando erros cometidos diariamente pelo pessoal que escreve em jornais. Prezo muito meu tempo livre para desperdiçá-lo dessa forma. Mas não consigo deixar de me irritar com a incomensurável falta de respeito demonstrada pelo pessoal que se mete a escrever sobre estes dois assuntos: armaria e matemática.
Um exemplo muito claro ocorreu nesta primeira semana de fevereiro. O correspondente do jornal O Globo em Londres, jornalista Fernando Duarte, comentava (O Globo, Segundo Caderno, 01/02/2010) sobre o sucesso que foi a temporada teatral londrina em 2009, apesar de todos os problemas que sacudiram a economia mundial naquele ano. Entusiasmado com a performance do teatro em tempos tão difíceis, o senhor Duarte informa que “os teatros da região bateram todos os recordes de arrecadação, com mais de US$800 bilhões em vendas de ingressos. De quebra, pela primeira vez atingiram a marca de14 milhões de espectadores”.
Não é preciso ser nenhum Fermat ou John von Neumann para perceber que se trata de um desmesurado disparate. Basta dividir os $800 bilhões pelo número de ingressos/espectadores para se chegar a conclusão que o preço médio dos ingressos foi de US$57.142,86!!! Para dar ao leitor a exata dimensão da bobagem perpetrada pelo senhor Duarte, basta ler o próprio O Globo de 02/02/2010, pág. 25, onde é citado que o orçamento de 2010 para as Forças Armadas americanas será de US$ 708 bilhões.
Quer dizer, então, que, segundo o jornalista Fernando Duarte, o orçamento das Forças Armadas Americanas é US$ 92 bilhões menor do que o total arrecadado pelos teatros londrinos na temporada de 2009? Alguém acredita que com um ingresso médio de 57 mil dólares os teatros londrinos tenham conseguido atrair 14 milhões de expectadores? Pensando bem, sei lá, os ingleses são um povo muito estranho...
Ademais o número de espectadores, 14 milhões, me parece um pouco exagerado. A população da Grande Londres é de 7.5 milhões de habitantes, se considerarmos 300 dias úteis/ano a média diária de expectadores seria de 46.667. Se ainda estimarmos em 200 o número de assentos por teatro, teríamos 233 teatros funcionando em plena capacidade todo o ano. Isto se considerando que existe um determinado tempo para captação de recursos, tempo para ensaios, confecção de figurinos, cenários etc. Embora eu tenha usado aqui algumas estimativas, os 14 milhões de espectadores seguem sendo, em minha opinião, um pouco demais.
Ao ler-se a matéria chega-se à conclusão que o jornalista Fernando Duarte, além de desconhecer a “Ciência dos Números”, não tem um mínimo de respeito por aqueles que ao comprarem o jornal para qual ele escreve pagam o seu salário ou parte dele.



















Os jornalistas não são só ruins em Matemática, são ruins também em Biologia. Eles juram que a Macroevolução das espécies é um FATO! e que as hipóteses de Charles Darwin são teorias! Todavia não existe consenso sequer entre os biólogos evolucionistas e existem aqueles que já descartaram a seleção natural... por que será que a Mídia Tupiniquim ignorou a reunião de 16 biólogos evolucionistas numa pequena cidade no interior da Áustria, Altenberg se não me engano, no verão de 2008 para discutir a crise do Neodarwinismo e o descarte da seleção natural e a consequente Teoria da Evolução Ampliada? A jornalista Suzan Mazur saiu na frente e já escreveu um livro a respeito. Alô Galileu, alô Superinteressante: vocês estão perdendo o bonde da História, ACORDEM!
Ha decadas vemos a qualidade do ensino no Brasil decair em perversa doutrinação ideologica. Qual a surpresa então ao constatarmos que a maioria dos brasileiros não sabe o que escreve. E digo que tambem não sabem o que lê, pois se soubessem reclamariam aos jornais que, para sobreviver, melhorariam. A denuncia é muito pertinente mas deve ser extendida às causas e, se possivel, aos responsaveis. Mas bom mesmo seria reverter este processo.
O Peter Hoff tocou num assunto interessante, mas quase nunca comentado. Em se tratando de números, a mídia nacional é rudimentar. Sejam números relativos a distâncias, pesos, áreas e superfícies, e até mesmo relativos a valores monetários, os jornalistas seguidamente apresentam absurdos. Há poucos dias eu assisti a um documentário na TV onde mostravam uma grande rachadura no solo, que o narrador assegurou medir 800 mil quilômetros. Um absurdo, pois com 800 mil quilômetros dá para fazer mais do que 20 voltas ao mundo. Quem sabe ele queria dizer que a fenda se espalhasse sobre uma área de 800 mil quilômetros quadrados. Isso seria razoável, mas não foi o que ele disse. O conhecimento desses caras sobre os números e as uniddes de medidas, são rudimentares.
MAIS DO MESMO
Alguns daqueles que leram o artigo acima hão de pensar que é rabugice minha, mas não tem jeito: jornalismo e matemática não se cruzam, pelo menos no jornal o Globo. A besteira da semana foi cometida pela jornalista Luciana Fróes, num artigo sobre a ilha da Sicília publicado no Caderno Boa Viagem de 5/03/2010.
Escreve a senhora Luciana: “Portanto, não ponha seus pesinhos nessa ilha de 25 mil quilômetros de extensão...”. Francamente, dona Luciana! Gostaria que a senhora me explicasse como uma ilha com tal extensão (25 mil quilômetros) cabe em um mar cuja extensão maior (leste/oeste) é de, aproximadamente, 4.300 quilômetros. A Rússia, o pais mais extenso do mundo, tem, da fronteira leste com a Finlândia até Uelen, no extremo nordeste, 16.000 (dezesseis mil) quilômetros.
Esclarecendo: a maior distância de terra contínua na ilha da Sicília é de 250 quilômetros. Daí para 25 mil...
A jornalista Luciana Fróes pode entender muito de turismo, mas em matemática, história e geografia é um zero absoluto.
Sou obrigado a discordar do leitor Edenilson, que me honra com sua leitura. O texto, literalmente transcrito acima, está grafado: "com mais de US$800 bilhões" e não 800.000.000.000 o que justificaria a hipótese levantada pelo leitor. No caso é ignorância mesmo.
Senhor Peter Hof, Infelizmente o erro nasceu órfão, e o acerto tem vários pais, e o pior de tudo, é que vivemos em um país em que se discute do coco do cachorro a bomba atômica. Porém não entendemos de ambos. Penso que um porcentual muito pequeno de nossa população não se curvou para ver o carreiro de formigas, enquanto as manadas de elefantes passam livremente. Há muitos anos que estou tentando entender esta matemática.
É possível que apenas tenham digitado alguns zeros a mais por engano. Vamos ver se na próxima seção Errata (ou seja lá como eles chamam essa seção do jornal) esse erro não seja corrigido.