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O paxá dos espiões

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Quando o filme de espionagem termina, o gentil chefe do serviço de inteligência – tendo enganado seus inimigos, tira o pó da lapela de seu terno perfeitamente costurado e desaparece em seu mundo de fantasia e controle.

Não foi assim que terminou a vida real (que pena!) do general Saad Kheir, o brilhante mas emocionalmente ferido espião-chefe que dirigiu o Departamento-Geral de Inteligência (DGI) da Jordânia de 2000 a 2005. Ele morreu em um quarto de hotel em Viena, no dia  9 de dezembro, vítima de um ataque cardíaco, como informou a agência oficial de notícias da Jordânia. Ele tinha apenas 56 anos.
 
Kheir era o melhor entre os maiores agentes de inteligência árabe de sua geração. Ele comandou uma série magistral de operações de infiltração contra grupos extremistas palestinos e, depois, contra a Al-Qaida. "Ele estabeleceu o padrão de como devemos trabalhar", disse um antigo funcionário da CIA, que trabalhou bem próximo dele.
 
Conheci Kheir há cinco anos, quando estava fazendo pesquisas para um romance sobre o Oriente Médio, chamado Rede de Mentiras,  e que depois foi transformado em um filme estrelado por Leonardo DiCaprio. Kheir foi o modelo para o meu chefe de inteligência fictício, Hani Salaam. Como todos os chefes do DGI, Kheir era tratadopelo título honorífico otomano "paxá" –  e então dei o apelido de "Hani Paxá" à minha versão ficcional.
 
Hani Pasha (representado no filme pelo ator britânico Mark Strong) rouba a cena e por uma razão simples – ele foi baseado num verdadeiro mestre do jogo. O método, o estilo e até o seu figurino, tudo foi inspirado no paxá verdadeiro.
 
Foi George Tenet, então diretor da CIA, quem primeiro descreveu para mim o brilho de Kheir como um operador. Eu perguntei a Tenet, em 2003, se algum serviço de inteligência estrangeira tinha sido especialmente útil contra a Al-Qaida, e ele respondeu imediatamente:  "o jordaniano".
 
E continuou, com um entusiasmo tenetiano:  "o cara deles,Saad Kheir, é uma superestrela!".
 
Assim, na próxima vez em que estive em Amã, perguntei ao palácio real se poderia me encontrar com o famoso chefe de inteligência, o que foi devidamente providenciado. Fui levado de carro ao terrível quartel-general do DGI, passei por sua bandeira negra com seu alerta ameaçador em árabe A Justiça Chegou e escoltado até o escritório do paxá.

Kheir tinha um charme bruto, embriagador – algo entre Humphrey Bogart e Omar Sharif. Ele estava elegantemente vestido, como sempre – naquela ocasião, paletó de caxemira, gravata e um par do que pareciam ser sapatos ingleses feitos à mão.
 
O paxá contou-me algumas histórias, e outros preencheram os detalhes: ele construiu seu nome ao se infiltrar em grupos palestinos xtremistas, como a organização Abu Nidal. Uma vez que conseguiu entrar na cova dos terroristas, foi capaz de plantar rumores e contrainformações que levaram os membros do grupo a brigarem entre eles. Pouco tempo depois, a fraternidade de assassinos de Abu Nidal tinha implodido num frenesi de suspeitas e autodestruição. Eu roubei essa ideia para Rede de Mentiras.
 
Kheir investigava seus alvos tão meticulosamente que entrava em suas vidas. Um ex-funcionário da CIA me contou sobre um golpe perfeito: Kheir seguiu um jihadista até um apartamento na Europa Oriental e lhe entregou um telefone celular dizendo: "Fale com sua mãe". A mãe do homem realmente estava na linha, dizendo que ele era um filho maravilhoso por ter lhe comprado uma TV nova e um sofá e lhe enviar dinheiro. A mensagem explícita foi: "nós podemos fazer boas coisas por você". A mensagem implícita foi : "nós podemos atingir você" – explicou o agente da CIA. Também aproveitei essa cena literalmente.
 
Como muitos serviços de inteligência árabes, o DGI tem a fama de usar métodos de interrogatório brutais, e tenho certeza de que ele não ganhou a apelido de "a fábrica de unhas" por nada. Mas os sucessos de Kheir nos interrogatórios muitas vezes vinham de um tipo diferente de intimidação. Colegas se lembram dele ficando atrás do suspeito, com sua voz grave e ameaçadora, enquanto falava da família, dos amigos e dos contatos do suspeito. Isso parecia bem mais assustador do que poderia ser a violência física. Ele esperava que os suspeitos derrotassem a si mesmos,  e isso geralmente funcionava.
 
Kheir violou as regras de seu  chefe, o rei Abdullah, quando começou a entrar na política e nos negócios. Foi o clássico excesso dos chefes de inteligência no Oriente Médio – e ele foi afastado em 2005. Sua demissão teve um preço cruel: Kheir podia ser visto bebendo muito, no final da
 noite, em seu restaurante favorito em Amã. Ele não era mais um senhor do universo e nem mesmo plenamente senhor de si mesmo.
 
Mas em seu apogeu, ele foi um gênio.
 
E é difícil pensar em um estrangeiro que tenha ajudado a salvar mais vidas norte-americanas do que Saad Paxá.

 

Publicado pelo Diário do Comércio em 17/12/2009




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