Eu sou o único a notar uma pitada de inconsistência na política dos EUA a respeito de Israel?
Por um lado, a secretária de Estado
Hillary Clinton comentou, em 27 de maio, sobre as residências de judeus israelenses na Margem Ocidental e na parte oriental de Jerusalém:
A respeito dos assentamentos, o Presidente foi muito claro quando o Primeiro Ministro Netanyahu esteve aqui. Ele quer ver um fim nos assentamentos – não alguns assentamentos, nem postos avançados, nem exceções de crescimento natural. Nós acreditamos que está nos melhores interesses dos esforços nos quais estamos envolvidos que a expansão dos assentamentos cesse. Essa é a nossa posição. Isso foi o que comunicamos muito claramente, não apenas para os israelenses, mas para os palestinos e outros. E nós temos a intenção de forçar esse ponto.
Do mesmo modo,
Barack Obama disse no dia 4 de junho: “
Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade dos assentamentos contínuos de Israel… Está na hora de que esses assentamentos parem”. E Clinton reafirmou em 17 de junho:
Nós queremos ver um fim aos assentamentos. Nós acreditamos que isso é uma parte importante e essencial na busca dos esforços que levem a um acordo de paz abrangente e à criação de um Estado Palestino próximo a um Estado Israelense judeu que seja seguro em suas fronteiras e no seu futuro.
Resumindo: Estamos tratando Israel como a um estado vassalo e dizendo-lhe o que fazer. Ponto.
Compare isto com as respostas do Vice-Presidente
Joe Biden, em 5 de julho, a George Stephanopoulos. Stephanopoulos perguntou se o Primeiro Ministro de Israel Netanyahu fez a abordagem correta quando concordou em dar a Barack Obama até o final de 2009 para que as negociações com o Irã funcionem, após o que ele estaria preparado para tomar a situação em suas próprias mãos:
BIDEN: Olha, Israel pode determinar por si mesmo – é uma nação soberana – o que é de seu interesse e o que decide fazer em relação ao Irã e a qualquer outro país.
STEPHANOPOULOS: Quer concordemos ou não?
BIDEN: Quer concordemos ou não. Eles têm esse direito. Qualquer nação soberana tem esse direito. Mas não há pressão alguma de nenhuma nação que vá alterar nosso comportamento quanto a como prosseguir. O que nós acreditamos faz parte dos interesses nacionais dos Estados Unidos, e que nós, coincidentemente, acreditamos que também seja do interesse de Israel e do mundo inteiro. E, além disso, existem assuntos separados. Se o governo de Netanyahu decidir seguir um modo de ação diferente do que o que está sendo perseguido agora, é seu direito soberano de fazê-lo. Essa escolha não é a nossa.
STEPHANOPOULOS: Mas apenas para deixar claro aqui, se os israelenses decidirem que o Irã é uma ameaça existencial, que eles têm que destruir seu programa nuclear, os Estados Unidos não vão intervir militarmente?
BIDEN: Olha, nós não podemos ditar a uma nação soberana o que ela pode ou não fazer quando tomar uma decisão, se eles considerarem que estão existencialmente ameaçados e que sua sobrevivência está ameaçada por outra nação.
STEPHANOPOULOS: O Sr. diz que não podemos ditar, mas podemos, se escolhermos negar-lhes a permissão de sobrevoar o Iraque. Nós podemos nos interpor a uma ação militar.
BIDEN: Eu não vou especular sobre esses assuntos, George, além de dizer que Israel tem o direito de determinar o que é de seu interesse, e nós temos o direito e iremos determinar o que é de nosso interesse.
Num esclarecimento, durante uma coletiva de imprensa em 6 de julho, o porta-voz do departamento de Estado
Ian Kelly enfatizou que Biden estava apenas relatando um fato e não enviando um sinal. Note o que diz Kelly durante a coletiva:
KELLY: Nossa meta aqui é evitar que o Irã obtenha armas nucleares. Quando eu digo “nossa”, não me refiro apenas aos Estados Unidos. Esta é “a meta” da comunidade internacional. Assim – e nós estamos nessa comunidade – assim, nossa abordagem agora é de estarmos muito engajados com parceiros internacionais para conseguir que o Irã cumpra com suas obrigações e responsabilidades e coopere completamente com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), como detalhado nas resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Tendo dito isso, Israel é um país soberano. Nós não iremos ditar suas ações. Nós também estamos comprometidos com a segurança de Israel. E compartilhamos as profundas preocupações de Israel a respeito do programa nuclear do Irã. Mas quanto à questão sobre o que eles planejam fazer em relação a isso, eu realmente tenho de pedir que vocês perguntem ao governo israelense.
PERGUNTA: Você ao menos se preocupa com o fato de que ao afirmar que Israel é um país soberano e de que nós não iremos ditar a eles quais serão suas ações, que suas palavras, com as do Vice-Presidente, possam ser interpretadas como uma espécie de sinal verde?
KELLY: Eu certamente não gostaria de dar um sinal verde para qualquer tipo de ação militar. Mas o que eu quero dizer é que – nossa política diz que – Israel é um país soberano e nós não iremos ditar suas ações.
Hoje,
Obama reiterou este ponto: “
Acredito que o Vice-Presidente Biden afirmou um fato categórico, de que nós não podemos ditar a outros países quais são seus interesses de segurança. O que também é verdadeiro é que é a política dos Estados Unidos é solucionar a questão da capacidade nuclear do Irã de uma maneira pacífica por meio de canais diplomáticos”.
Resumindo: Israel é um país soberano que decide sobre seus interesses de segurança.
Comentários: (1) Quanta diferença, não? A soberania de Israel é varrida para o lado quando diz respeito a judeus construindo novos quartos no leste de Jerusalém, mas respeitada quanto a bombardear o Irã.
(2) Respeitar as decisões de segurança de um aliado soberano é o padrão dos EUA; rudemente ordenar-lhe o que fazer, é a exceção.
(3) Desgostoso como estou a respeito da questão dos assentamentos, prefiro essa situação que a contrária: Israel livre para construir novos quartos, mas impedida de lidar com o Irã.
Tradução: Roberto Ferraracio