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Ridicularizamos a desastrosa decisão japonesa de entrar em guerra com o colosso americano em 7 de dezembro de 1941. Mas essa análise, por mais correta que seja, desfruta do benefício da visão em retrospecto, e não explica por que militaristas bastante inteligentes, por alguma razão, acreditavam poder vencer, ou ao menos obter uma trégua vantajosa após um período de seis meses de expansão. Que eles não tenham sido bem sucedidos e tenham, em vez disso, destruído o seu país nessa barganha, não é o ponto. Nem mesmo o “fanatismo” é uma exegese completamente adequada para Pearl Harbor; uma lógica especial é.
Vamos enumerar os porquês:
1) Os Estados Unidos não intervieram na Europa, a despeito de mais de dois anos observando a Alemanha nazista invadir os seus aliados democráticos na Europa Ocidental e a blitz sobre Londres. Diante disso, os japoneses estavam convencidos de que nós simplesmente não poderíamos ser provocados, ou de que não era da nossa natureza lutar por muito tempo, sob quaisquer circunstâncias;
2) O Japão tinha acabado de assinar um pacto de neutralidade e não-agressão com a Rússia (que assim pagava na mesma moeda a perfídia de Hitler). Esse acordo de abril de 1941 garantiu que não se repetiria o cenário da guerra de fronteira de agosto de 1939, que deixou um saldo de milhares de japoneses mortos (cinquenta mil?). Assim, o Japão agora travava uma guerra de front único contra os Estados Unidos e o Império Britânico; mas este último travaria uma guerra em duas frentes contra a Alemanha (e Itália) e Japão;
3) O Japão desejava petróleo, borracha, estanho, arroz e outras commodities estratégicas. Nessa altura, as Índias Orientais Holandesas não contavam mais com seus senhores coloniais após a queda da Europa Ocidental. A França de Vichy era complacente no Sudeste da Ásia. Em outras palavras, um mundo de matérias- primas estava finalmente à disposição do Japão, incluindo muito da atual Malásia, Indonésia e do sudeste asiático, pronto a ser tomado caso fosse possível uma conveniente guerra de curta duração. A Grã-Bretanha estava amarrada no norte da África (com Tobruk prestes a cair) e Burma e a Índia colonial [que então incluía o Paquistão e Bangladesh] também estavam maduras para a colheita japonesa;
4) Ao final de novembro de 1941, a Alemanha estava às portas de Moscou, Leningrado estava isolada; a Criméia, prestes a cair. Os U-boats alemães batiam recordes de destruição de comboios britânicos. Hitler não apenas certamente venceria a guerra na Europa, mas também havia uma boa chance de que os japoneses se juntassem a ele, quer através do canal de Suez ou no Golfo Pérsico. E por que lutar contra a Rússia quando esta em breve deixaria de existir?
5) O front chinês estava calmo em sua maior parte: a longa ocupação [desde 1931] era, ou gerida por governos fantoche, ou facilitada pelas rivalidades entre nacionalistas e comunistas chineses;
6) Os Estados Unidos ainda viviam a depressão econômica, com seu parque industrial subutilizado e sua infraestrutura militar, em grande medida, ainda em fase embrionária. Foi um mau hábito dar sermões ao Japão, promover embargos, sem provar ao Japão que os EUA tinham a força para detê-lo e a vontade de colocar em prática as suas palavras.
Em poucos meses, quase todos esses cálculos japoneses provaram-se equivocados (depois das decisivas batalhas de Midway e Guadalcanal). Mas novamente, essa não é a lição. Na época, sendo militaristas agressivos, os japoneses tiravam suas conclusões lógicas com base em seus interesses próprios, os quais parecem ridículos somente quando vistos em retrospecto e fundamentalmente em função da fenomenal, mas não prevista, reação dos Estados Unidos.
E hoje?
Considere a tentativa de aproximação com a Rússia feita por Obama. Ele pressupõe que Bush polarizou com a Rússia gratuitamente, com um estado que tinha poucos problemas com os Estados Unidos no pós-Guerra Fria, a despeito de sua riqueza em petróleo, do governo autocrático, da política de assassinatos em série de dissidentes políticos em solo russo ou no exterior, e da perda de prestígio com a dispersão das antigas repúblicas soviéticas. Assim, culpamos Bush com o uso do monótono refrão de “reset”. Então, alijamos os europeus do leste com a desculpa muito vaga de que, “em qualquer caso, nós temos um sistema móvel de defesa antimísseis ainda melhor”. Em seguida, afirmamos que um Putin agradecido irá considerar tanta magnanimidade e nos ajudará quanto ao Irã.
Mas estamos olhando para tudo isso com nossos olhos pós-modernos. Tente, tal como no caso do Japão de 1941, ver com olhos russos. Para os Estados Unidos, os amigos de Bush agora são dispensáveis – quer eles sejam a Polônia, Israel, Honduras, Colômbia ou Maliki, do Iraque. Os inimigos de Bush agora são amigos ou neutros – dando a entender que Obama concorda que estar furioso com os EUA, tal como estava a Rússia, era compreensível e que durante o período entre 2001 e 2009, ser amistoso com os americanos era logicamente suspeito. Todos os pecados passados da Rússia, de assassinatos à alavancagem técnica e financeira européia da indústria do petróleo russa [o que tornou a Europa refém do petróleo russo], agora são minimizados porque “foi culpa do Bush”.
Portanto, Putin parte da idéia de que suas provocações do passado são compreensíveis aos olhos de Obama, dado que os dois compartilham da mesma antipatia por Bush. E considerando o discurso de Obama na ONU, onde ele afirmou que o poderoso não apenas não irá, como não pode dominar o fraco, os russos só podem estar sorrindo e pensando “Mas por que não pode?” ou melhor ainda “Queira Deus que esse ingênuo realmente acredite nisso!” (Lembre: a ONU não é capaz de nem sequer fazer valer a limitação de 15 minutos para o maluco Gaddafi, que matraqueou por 90 minutos sem ouvir um único “Pare!”).
Ganha, Ganha e… Ganha!
Assim, o que poderia impedir a expansão da influência e da intimidação da Rússia, ou mesmo a reincorporação à força das antigas repúblicas soviéticas? Somente a sua própria análise de interesses, dos perigos e da relação custo/benefício. Certamente não seria o poder de dissuasão militar regional. A maioria dos estados em seu caminho, tais como a Geórgia e a Letônia, são pequenos e fracos. A Europa Oriental está, essencialmente, indefesa. A OTAN é um leão desdentado que ficaria embaraçado se prometesse garantias de proteção a uma Ucrânia, conforme o Artigo V de seus estatutos, uma vez que nenhum belga ou italiano estaria desejoso de sacrificar-se por Kiev. A ONU não é apenas irrelevante, mas ainda mais irrelevante na medida em que Obama louva o seu conselho de “direitos humanos” e bate no peito ao falar de sua importância. E os Estados Unidos? Ora, ora...
Estamos desesperados querendo cortejar a Rússia. Porém, nada daquilo que os russos fizeram com relação ao Irã tem a ver com Bush, mas tudo a ver com a idéia de que qualquer coisa que seja ruim para os Estados Unidos é boa para uma Rússia em ascensão.
Eis aqui as palavras de um expert russo, Sergei Karaganov, chefe do Conselho de Política Externa e Defesa, a respeito da recente tentativa americana de agradar a Rússia, reproduzidas pelo jornal Asia Times, avisando de antemão que nada se deve esperar dessa tentativa: “Os Estados Unidos, é claro, têm o direito de almejar por vários acordos e acertos nesta questão, mas eu não acho que a Rússia os fará. Não temos interesse em estragar as relações com uma potência emergente da região [i.e., o Irã]. Avanços ainda não podem ser esperados”.
E aqui o Asia Times relata e cita a respeito das esperanças da administração Obama: “Um alegre e satisfeito Michael McFaul, alto assessor da Casa Branca para assuntos da Rússia, trombeteou: ‘Agora estamos num outro nível nas relações Estados Unidos-Rússia’”.
Todavia, a noção de não estragar as “relações com a potência emergente da região” parece ser melhor para explicar por que Putin venderia materiais para reatores a um doido negador do Holocausto que tem o propósito de obter a bomba nuclear. É possível que na visão russa, agora que um imprevisível Bush se foi, as coisas estejam ficando melhores.
Considere a avaliação russa: Um Irã com poder nuclear causa toda a sorte de dores de cabeça aos Estados Unidos e também aos seus aliados sauditas. Há muito dinheiro a ganhar em vendas de armas e equipamentos nucleares. Um Irã com poder nuclear – ou as tentativas de impedir que isso aconteça – causarão uma enorme desordem na região exportadora de petróleo, e tais incertezas só podem ajudar a alta dos preços do petróleo daquele que é hoje o maior exportador mundial (7,4 milhões de barris de Putin por dia).
Ou seja, o Irã é um negócio de ganha-ganha para uma ditadura russa; sempre foi e provavelmente continuará sendo. Perguntamo-nos: por que Putin está causando problemas, ou: por que Bush o ofendeu? Na verdade, a única pergunta apropriada é: por que não causar problemas correndo pouco risco se você é um ex-criminoso da KGB?
Problemas significam comércio lucrativo com estados bandidos ricos em petróleo que querem comprar “coisas” da Rússia para poder “explodir os caras”.
Problemas calam os europeus ocidentais, pretensiosos e moralistas.
Problemas mandam um recado às ex-repúblicas soviéticas.
Problemas significam os Estados Unidos amarrados a uma potência nuclear que ameaça Israel e os árabes pró-Estados Unidos.
Problemas significam mostrar aos observadores mundiais que a retórica de esperança-mudança de Obama é uma boa maneira de se meter em muitos problemas, enquanto a outros faz lembrar que apesar de criminoso, o regime russo é confiável e bom para se ter do seu lado. (Quando a Wehrmacht se aproximava de Moscou no final de 1941, os países europeus “civilizados” e neutros, tais como a Suécia, Suíça, Espanha, Portugal e também a Turquia, começaram todos a barganhar concessões com Hitler, então o vencedor certo, jogando a linha para fisgar mais comércio, dinheiro vivo, terras fronteiriças, a resolução de velhas pendengas, etc. – sem o mínimo de preocupação com fato de que Hitler estava matando milhões de civis russos e assassinando os judeus da Polônia e Ucrânia). [Perto do final de 1944, esses mesmo estados civilizados estavam execrando Hitler e jogando a linha para os Aliados].Há muitas coisas inexplicáveis sobre a II Guerra, especialmente sobre o segundo “teatro” de operações”, no Pacífico. Se alguém examinar em profundidade a 1ª Divisão de Fuzileiros Navais dos EUA, é quase inexplicável como, poucos meses depois de Pearl Harbor , esse fuzileiros já eram páreo para as experientes brigadas japonesas, endurecidas em várias batalhas, e mesmo sem apoio aéreo e naval, derrotaram-nas em terreno japonês. De onde vieram esses homens? Para respostas sobre a Old Breed, leia Eugene B. Sledge.
Todavia, Obama causou muito estrago nesse meio tempo, fazendo demagogia sobre essa instalação prisional, manchando o cuidadoso trabalho daqueles que precisam manter sob guarda um tipo pessoas que quer nos matar.
©2009 Victor Davis Hanson
Tradução: Henrique Dmyterko
Publicado originalmente no Pajamas Media em 29/09/2009.
Também disponível no site do autor.



















Quanto ao texto não tem o que discutir, é excelente e muito esclarecedor. A única coisa a acrescentar é que a Rússia, por trás do arsenal nuclear iraniano, não sobra alternativa de Israel se não atacar o Irã e tentar destruir suas usinas nucleares. Israel me faz lembrar a Tchecoeslováquia, que, para apaziguar a Alemanha, deixaram a Alemanha entrar nela. O mundo ocidental acha que Israel sendo destruido apaziguará o mundo muçulmano.
O artigo do Victor Davis Hanson é excelente. Na minha interpretação, com referência ao ataque japonês Pearl Harbor, Tora ,Tora,Tora, há muitos indícios de que o Japão foi arrastado para uma ratoeira. Algumas das vítimas são o Almirante Kimmel e o General Walter C. Short, Patrik l. Bellinger, o oficial de defesa aérea que predisse o ataque japonês. Enfim, todos sabemos que o primeiro soldado a tombar em uma guerra é a verdade. Porém sabemos como começa uma guerra, mais nunca saberemos como terminará.
Se o passado não volta mais, continua atuando.
Ainda que haja um enorme esforço para reescrever ou apagar a história, o passado se revela atualíssimo a quem presta atenção. Victor Davis Hanson é um deles.
Grande artigo e grande reforço à já muito respeitável lista de colunistas deste site.
Parabéns.
Sensacional!!!!Espero que os artigos do Dr. Victor Hanson tornem-se rotina aqui no nosso M@M. A compreensão acerca da 2ª Guerra é brilhante, e coincide com a análise já formulada pelo grande Paul Johnson em "Tempos Modernos". A história não se repete, é certo, mas os equívocos que conduziram a catástrofes no passado muitas vezes acabam repetidos, quer por tolice, quer por oportunismo, quer por ignorância.
A falta de compreensão sobre o novo Eixo totalitário que se forma no séc. XXI (Rússia putinista, China vermelha e fascismo islãmico) e seus sócios menores (Foro de S. Paulo, p. ex.), tudo cimentado por um anti-americanismo psicótico, pode custar muito caro ao Ocidente. O triste é pensar que o Brasil já entrou nesse jogo, e entrou do lado errado...
E eu que pensava que já tinha lido, visto e ouvido tudo sobre a II GG. Ler artigos assim me faz perceber que eu ainda nada sei...
O dr. Hanson tem uma excelente percepção geopolítica e histórica dos fatos, sendo uma pena que apenas um de seus livros tenha sido traduzido para o português. De qualquer forma, um ótimo artigo e muito boa aquisição do Mídia@Mais.
Uma análise instigante.
A julgar por este artigo, mais um excelente colunista para acompanhar neste site.
Meus parabéns.
Que bela aula de história e geopolítica.
Como é bom poder observar o mundo a partir de informações históricas e não de rótulos achistas medíocres.
Bela escolha. O sr. Victor D. Hanson passará a ser colunista regular do Mídia@Mais, suponho. Se sim, foi uma grande estréia. Parabéns.